Iching

· Sabedoria

ÍNDICE

ESQUEMA DE IDENTIFICAÇÃO DOS HEXAGRAMAS EM SUA FUNÇÃO ORACULAR
ÍNDICE DOS HEXAGRAMAS
SOBRE O CONCEITO DAS MUTAÇÕES/a>
SOBRE O USO ORACULAR DO LIVRO DAS MUTAÇÕES
SOBRE A PRESENTE TRADUÇÃO
PREFACIO À PRIMEIRA EDIÇÃO
INTRODUÇÃO
I. O USO DO LIVRO DAS MUTAÇÕES
O Livro dos Oráculos
O Livro de Sabedoria
II. A HISTORIA DO LIVRO DAS MUTAÇÕES
III. A ORGANIZAÇÃO DA TRADUÇÃO
PREFÁCIO DE C. G. JUNG
IV – LIVRO PRIMEIRO
1. CH’IEN/O CRIATIVO
2. K’UN/O RECEPTIVO
3. CHUN/DIFICULDADE INICIAL
4. MENG/A INSENSATEZ JUVENIL
5. HSU/A ESPERA (NUTRIÇÃO)
6. SUNG/CONFLITO
7. SHIH/O EXÉRCITO
8. PI / MANTER-SE UNIDO (SOLIDARIEDADE)
9. HSIAO CH’U/O PODER DE DOMAR DO PEQUENO
10. LU/A CONDUTA (TRILHAR)
11.T’AI/PAZ
12. PI / ESTAGNAÇÃO

Sempre com o intuito de trazer a Luz à sabedoria milenar, trazemos à vocês o I Ching, onde iremos transcrever os textos que trazem a essência deste saber e não sua parte mística, como elemento de sorte, pois não acreditamos nisso, mais sim, firme e fielmente na palavra de nosso grande Pai, espalhada pelos cantos do mundo, iremos mais uma vez trazer até vocês mais um texto construtivo

Nota: Projeto Alquimia

Tradução do chinês para o alemão, introdução e comentários: Richard Wilhelm

Tradução para o português: Alayde Mutzenbecher e Gustavo Alberto Corrêa Pinto

Título original: I Ging Das Buch der Wandlungen

ESQUEMA DE IDENTIFICAÇÃO DOS HEXAGRAMAS EM SUA FUNÇÃO ORACULAR

iching-01.jpg

Para compor o hexagrama, basta seguir os dois trigramas que o formam; o ponto de encontro dos mesmos indica o número do hexagrama desejado.

ÍNDICE DOS HEXAGRAMAS

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SOBRE O CONCEITO DAS MUTAÇÕES

            O que hoje conhecemos com o nome de I Ching, o Livro das Mutações, surgiu no período anterior à dinastia Chou (1150-249 a.C), com figuras lineares, compostas de linhas inteiras e linhas interrompidas, superpostas em conjuntos de três e seis linhas, chamados “Kua” (signo). James Legge, em sua tradução do I Ching (The Sacred Books of lhe East, XVI: The Yi King, Oxford, 1882), cunhou os termos “trigrama” e “hexagrama” para designar os Kua compostos por, respectivamente, três e seis linhas. Esses termos têm sido adotados por vários estudiosos do I Ching, uma vez que possibilitam a distinção dos dois diferentes tipos de Kua. (Na presente tradução, adotamos também esses termos.) Nessas figuras lineares, estavam as sementes da cultura, de extraordinária complexidade e riqueza, que, ao longo dos milênios seguintes, viria a se desenvolver na China. A sabedoria contida nos Kua veio a exercer uma influência decisiva nos rumos futuros da civilização chinesa. A tradição desses Kua era, até meados da dinastia Chou, identificada com a designação “I” (iching-a.gif ), um ideograma de origem controvertida e que tem sido traduzido por “mutação”. Para a China antiga, o nome de algo era considerado não apenas como um rótulo arbitrariamente atribuído, mas, antes, uma expressão do ser mesmo daquilo que em seu nome se deixa ver, se desvela. Essa concepção será desenvolvida mais tarde por Confúcio, para quem a harmonia do mundo depende da retificação dos nomes. O fato, portanto, de a tradição de sabedoria dos Kua ter sido originalmente designada por “I” é da máxima importância*. A etimologia do ideograma “I” tem sido objeto de grande discussão. Segundo alguns autores, o ideograma teria sua origem no desenho de um camaleão, significando movimento (em virtude da agilidade dos lagartos) e  mutação  (em  virtude  do  mimetismo).  A parte  superior  do  ideograma (iching-b.jpg )  seria resultante de  uma  estilização  do  desenho  da  cabeça,  e  a  parte  inferior (iching-c.jpg ) resultaria do corpo e das patas do camaleão.

*As designações “Chou I” e “I Ching” se referem a fases distintas na elaboração dos textos que vieram a acompanhar os Kua. Chou se refere à dinastia cujos fundadores, Wên c Chou, redigiram (segundo a tradição) os textos referentes, respectivamente, ao Julgamento e as Linhas. O fato de o “I” ter passado a chamar-se “Chou I” evidencia que, no decorrer da dinastia Chou, o acesso ao significado dos Kua passa a se fazer através da Mediação dos textos de Wên e Chou, como também demonstra a prevalência cada vez maior dos textos sobre as figuras lineares. Quando, na fase final da dinastia Chou, o “I” passa a ser editado como um dos “Clássicos” (“Ching”), inicia-se a leitura dos próprios textos de Wên e Cho u através das chamadas “Dez Asas”, que, em sua maioria, apresentam uma forte influência da escola confucionista. (A tradição chinesa mantém, desde Ssu-ma Ch’ien, 145-86 a.C, que as Dez Asas são de autoria de Confúcio. Há. entretanto, vários indícios que mostram ser essa hipótese discutível.) “Chou I” e “I Ching” são, portanto, designações tardias. O título original seria apenas “I”. Nas próprias Dez Asas, há várias passagens que se referem às “Mutações” (“I”) para designar a obra.

            Outros autores sustentam que o ideograma em questão teria surgido de uma composição do ideograma de “Sol” (iching-d.jpg) na  parte  superior  com  o  ideograma  de “Lua” (iching-e.jpg), estilizado na parte inferior. O sentido de “mutações” se deveria então ao constante movimento aparente do Sol e da Lua no céu. Outros elementos importantes para a elucidação do significado do termo podem ser encontrados nessa hipótese. Sem dúvida, mutação é o fator central da visão de mundo que se consolida na China no período imediatamente anterior à dinastia Chou. A observação do mundo em torno de si e a observação do mundo em seu próprio interior levaram o homem chinês à constatação de um fluir contínuo do qual nada escapa. É, porém, necessário atentar-se ao fato de que, assim como no conceito budista de anicca (impermanência), essa mutação não era concebida corno incidindo sobre seres ou objetos sofrendo modificações. Não há o que mude, não há quem mude, pois só há o mudar. Supor que algo ou alguém muda é supor esse algo ou alguém fora da mutação, sofrendo-lhe então a ação. Ante a universalidade e onipresença da mutação, não se pode propriamente falar de algo ou alguém que muda. Má que se compreender, isto sim, os modos e estágios da mutação e, para tanto, cunharam-se os Kua, que a tradição chinesa atribui a Fu Hsi, o ser mítico em quem teve origem todo o mundo chinês.

         Analisando-se a mutação, verifica-se que ela própria é invariável. Sendo onipresente e absoluta,a mutação é imutável. Por isso, “I” significa mutação e não-mutação.

            Há ainda um terceiro significado, que equivaleria, aproximadamente, a “fácil e simples”. No fundo da complexidade aparente do universo, jaz oculta uma “simplicidade”. Ela consiste nas tendências opostas e complementares em que sempre oscila a mutação. Atividade e repouso, movimento e inércia, ascensão e declínio são os eternos e mesmos caminhos que sempre o irrepetível percorre. Muda constantemente a natureza, porém sempre ao longo das mesmas estações. Nunca as mesmas flores, mas sempre a primavera. Os fenômenos são incontáveis e distintos uns dos outros, porém regidos, em suas tendências de mudança, pelos mesmos e constantes princípios. Apreendendo-os, descobre-se o simples por detrás do complexo, o que implica também no fácil, que é a trajetória c o percurso de tudo o que acompanha o ciclo cm vigência. Fluindo em acordo com as circunstâncias, evita-se o atrito, escapa-se ao desgaste. O caminho do fácil é duradouro e espontâneo, pois não exige esforço. Assim como a água descendo a montanha, diante de nada recua, diante de nada insiste; mergulha, desvia, contorna, adapta-se sem resistência e chega, pois, infalivelmente ao que lhe corresponde.

            Mutação, não-mutação, fácil e simples, são, portanto, aspectos de um só todo, o conceito de “I”; ele expressa de forma completa e perfeita o conjunto das sessenta e quatro estruturas lineares, os hexagramas.

           Mas, ao raiar da dinastia Chou, essas estruturas deviam estar se tornando obscuras, pois textos foram acrescentados, no intuito de se indicar, através de palavras, o significado que antes os próprios Kua transmitiam. A tradição atribui esses textos ao rei Wên (Julgamento) e ao duque de Chou (Linhas), com quem a dinastia Chou principia. Esses textos passaram a acompanhar os Kua e, com o tempo, a tradição das “Mutações” (“I”) passou a ser designada “Chou I”, uma referência à dinastia cujo início coincide com a redação dos textos, os quais, cada vez mais, catalisaram a atenção em virtude do crescente velamento dos próprios Kua. Mas o significado desses mesmos textos, séculos mais tarde, começaria a velar-se, exigindo novos adendos explicativos e, no VI século a.C, surgem as chamadas “Dez Asas”. A tradição atribui as Dez Asas a Confúcio. Apesar de ser questionável se Confúcio teria, ele próprio, redigido todas ou mesmo alguma das Dez Asas, é indubitável a forte influência de seu pensamento em grande parte delas. Sem Confúcio talvez não se pudesse conceber a maioria das asas. Pelo menos como fonte básica de inspiração, é a ele que esses textos remontam. Consta que o Chou I foi incluído por Confúcio em sua edição dos “Clássicos” (“Ching”). Assim, a tradição das “Mutações” veio a se tornar conhecida como o I Ching, o Livro (ou Clássico) das Mutações.

            O fato de se ter acrescido, inicialmente, a indicação dos primórdios da dinastia Chou ao ideograma “I” mostra que o acesso ao “I” já não se fazia mais diretamente, como fora antes, mas recorria-se à mediação dos textos de Wên e Chou. Quando se passa a designar o “I” como “Ching”, evidencia-se o obscurecimento da via anterior e o recurso aos comentários (Dez Asas), que procuraram esclarecer os comentários (Julgamento e Linhas), que, por sua vez, procuraram esclarecer o original, os Kua. O “I” é, portanto, um livro sem palavras, que fala na eloqüência silenciosa de suas figuras lineares.

            Disse um mestre zen que: “O dedo serve para apontar a Lua; o sábio olha para a Lua, o ignorante para o dedo.” Os textos todos que foram acrescidos ao verdadeiro original as figuras lineares – são úteis e preciosos, mas somente quando não se permanece neles.

SOBRE O USO ORACULAR DO LIVRO DAS MUTAÇÕES

            O Livro das Mutações tem sido utilizado como oráculo desde a Antigüidade. Ao longo da História da China, pode-se notar que alguns períodos têm dado menor ou maior ênfase a esse aspecto, como ocorreu no VI século a.C. e durante a dinastia Han, respectivamente. No Ocidente, seu uso oracular tem despertado um interesse e fascínio excessivos. Lamentavelmente, toda sorte de abusos e erros tem se acumulado, em virtude dessa visão parcial e distorcida. O I Ching não é apenas (nem primordialmente) um oráculo. Ele é também um oráculo. E essa sua faceta 6, inclusive, quase irrelevante se confrontada com a riqueza da sabedoria contida nos Kua. O uso oracular do livro corresponde apenas a uma fase, digamos, primária, quando ainda não sabemos aplicar por nós mesmos, às nossas vidas, os princípios desvelados pelas figuras lineares, por não conseguirmos enxergar as correspondências existentes entre os Kua e todos os fenômenos. O aspecto oracular é apenas uma nota dentro do vasto complexo melódico do intróito ao I Ching. Mas, ainda assim, é uma nota e como tal não deve ser ignorada, tanto quanto não deve ser exclusivamente considerada. Wilhelm, em seu Apêndice sobre o oráculo, explica como se procede à consulta (cf. Livro Terceiro), mas não se detém o suficiente num ponto que é de importância capital, a saber, formulação da pergunta, e quase não menciona outro, o ritual.

            A formulação da pergunta tem um papel decisivo no êxito ou no fracasso da consulta (no sentido da compreensão ou não da resposta obtida). O oráculo, segundo a tradição chinesa, nunca falha. Suas respostas são sempre claras e precisas; porém o nosso entendimento é, muitas vezes, turvo e confuso. O oráculo sempre mostra o que é; nós, entretanto, muitas vezes não conseguimos ver o que ele nos mostra, pois não queremos ou não sabemos ver. Todas as barreiras e obstáculos à compreensão da resposta estão em nós e não no oráculo. Enquanto manifestação do inconsciente, o oráculo usa a linguagem simbólica, que é própria daquele, e não o discurso racionalizado que o consciente habitualmente articula. Para que o significado se aclare, teremos de aprender o modo de concatenação dessas imagens simbólicas, ao invés de insistirmos em tentar decodificá-las segundo padrões que lhes são estranhos.

            A primeira grande dificuldade que enfrentamos é saber com clareza e precisão o que buscamos. Só quem sabe o que procura pode encontrar. Na formulação da pergunta, explicitamos para nós mesmos o que estamos buscando. A pergunta incorretamente formulada revela uma imperfeita compreensão do que procuramos saber, o que, por si só, já dificulta ou mesmo impossibilita que o reconheçamos. Mas o que é uma pergunta correta? Ela se caracteriza por sua intenção e por sua forma. A intenção correta consiste na adequação ao propósito e finalidade do próprio oráculo, ou seja, auxiliar o homem na busca da verdade, na busca de si mesmo, já que é em si que ele há de encontrá-la. A consulta oracular, no sentido exato da expressão, não é outra coisa senão a busca do que é, na transcendência do que parece ser. A pergunta que busca o que é, que procura o real para além do aparente, possui a reta intenção. Ora, o eu, a personalidade consciente de si enquanto individualidade isolada, é em nós apenas uma aparência transitória. Tudo, portanto, o que diz respeito aos propósitos, interesses, ambições ou anseios do eu, não passa de fugaz ilusão, não é senão o que deve ser superado. O oráculo possui uma completa autonomia; não está a nosso serviço nem se submete a nossos caprichos e desejos. À pergunta impertinente ele se recusará a responder (cf. Hexagrama 4, Insensatez Juvenil) ou, então, tematizará a ignorância e a ilusão que motivaram a pergunta, incitando à sua superação. O oráculo não é uma máquina de informações, mas um ser vivo, que encerra a suprema sabedoria e compaixão. Aproximarmo-nos dele requer humildade, sinceridade e ardor. Só sabiamente caminhando se pode chegar à sabedoria. Ela é seu próprio requisito. É a sabedoria que nos conduz à sabedoria. Realizá-la é possível, tão-somente porque já a possuímos, desde todo sempre, em nós mesmos.

            Ao lado da intenção correta, supõe-se a forma correta. Isso significa estarmos aptos a dar expressão de modo claro, inequívoco, sintético e preciso ao que procuramos. A pergunta formulada de modo ambíguo ou vago evidencia uma visão turva e confusa do que se busca, e resulta na incapacidade de se reconhecer aquilo que não se sabe ser o objeto da busca. Uma pergunta não deve, também, ter mais de um significado visado. Se, numa questão, estão envolvidos dois ou mais temas, deve-se subdividi-la em tantas perguntas quantos forem os núcleos de significado intencionados. Assim, cada pergunta deve indagar por uma única coisa. O caráter sintético da formulação é também muito importante. Na concepção chinesa, o que de fato se sabe deve-se poder expressar em poucas palavras. Quando se precisa falar muito para se dizer algo, é porque ou o saber ainda não alcançou sua plena maturidade, ou se está dissimulando, o que significa que se está procurando evitar que se faça o saber. A dissimulação é a ignorância que procura perpetuar a ignorância. “A sabedoria de um pensador se mede pela sua capacidade de dar um exemplo”, diz a máxima chinesa. O exemplo é uma síntese simbólica de toda uma idéia ou mesmo de um complexo de idéias. Antes da consulta ao oráculo, a pergunta deve ser lapidada, cada aresta de imprecisão aparada, até que se chegue ao ponto em que só o núcleo essencial brilhe, claro e solitário. Então, sabendo o que buscamos, livres dos embaraços de aspectos secundários ou irrelevantes, podemos dar início à fase seguinte, o processo de obtenção da resposta segundo o método tradicional de divisão de cinqüenta varetas, conforme os procedimentos descritos por Wilhelm no Apêndice sobre o oráculo e explicados também no Livro Segundo (Ta Chuan, O Grande Tratado, Primeira Parte, Capítulo X). Quanto ao método de consulta por meio de jogo de moedas, sua única suposta vantagem (a economia de tempo) revela-se, na verdade, uma séria desvantagem, quando se leva em consideração certos mecanismos psicológicos envolvidos no processo oracular. O método de varetas requer, para cada consulta, em torno de meia hora. Durante esse tempo, repete-se um processo já estabelecido de divisão sistemática das varetas em conjuntos e subconjuntos, que, no entanto, exige uma constante atenção, pois qualquer lapso pode pôr a perder a ordem dos procedimentos necessários. Com isso, a atenção se fixa sobre os dados imediatos e afasta temporariamente a influência dispersiva do eu, com suas expectativas e memórias, com seus desejos e repulsas. Durante esses momentos, a mente tende a se afastar de seu centramento no arbítrio consciente e se torna mais disponível ao que lhe é sugerido do inconsciente, pelo próprio inconsciente, através do texto. O “salto” quase instantâneo sobre a resposta que o processo de lançamento das moedas provoca resulta, portanto, num despreparo, que será pernicioso ao trabalho de interpretação. A voracidade imediatista que busca apressar a obtenção da resposta demonstra uma imaturidade inadequada ao diálogo oracular. A pressa afastará de nós aquilo pelo que não soubemos esperar. Quanto ao fato de ser o método de moedas mais fácil de executar que o sistema de divisão de varetas, lembremos o seguinte: se recuarmos já diante de um processo mecânico tão simples, como poderemos enfrentar as complexidades de um texto denso e, mais ainda, de tão sutis e difíceis correspondências no plano interno? Se o mero processo mecânico da consulta por meio das varetas lhe parece demasiado difícil, é melhor deixar o oráculo de lado, pois o que há adiante é muitas vezes mais árduo, e exige, isto sim, paciência, perseverança, coragem e disposição inabaláveis para enfrentar uma investigação longa e trabalhosa.

            Quanto ao ritual que tradicionalmente cercava a prática oracular na China, deve-se ter em mente que o processo de consulta nada tem de mágico. O ritual tinha uma função psicológica e se inseria na tendência chinesa de abordar ritualisticamente as atividades quotidianas. Um conjunto de hábitos ligados à prática oracular e ao manuseio do I Ching faz parte desse contexto. Por exemplo, usava-se sempre um corte de seda virgem para envolver o livro e uma caixa de madeira (que, também, jamais tivesse servido a outra finalidade), para acondicionar as varetas. Assim, expressava-se o respeito e reverência para com o oráculo enquanto meio de expressão do inconsciente, do que há de mais verdadeiro, puro e essencial em nós. Por outro lado, o livro nunca era guardado a uma altura superior à de seu dono, numa advertência contra a idolatria, que obscureceria o fato simples de que quem responde não é senão quem pergunta. Toda a diferença está no caráter sempre periférico do aspecto que pergunta e no caráter central do que responde.

            O consulente sentava-se sempre voltado para o sul, a região do Sol, da luz (Li, o trigrama do fogo, está situado ao sul, no arranjo do Céu Posterior), tal como o faziam os governantes quando concediam audiências. A posição externa simbolizava a atitude interna. Voltar-se para a luz significa voltar-se para o que permite ver e entender.

            O incenso era usado durante a consulta, assim como em grande parte dos demais ritos. Era considerado elemento purificador, bem como representava a perseverança, pela constância com que queima. Antes de iniciar o processo de divisão das varetas, o consulente curvava-se três vezes e, tomando as cinqüenta varetas em sua mão direita, passava-as três vezes pela fumaça do incenso, em movimento circular, no sentido horário.

            Todo esse ritual é, entretanto, perfeitamente prescindível, sem que isso altere a precisão da resposta. Seu efeito seria no âmbito interno, no consulente. Também, por isso, antes da consulta, era costume dedicar algum tempo à prática da meditação. Dentro de um contexto cultural tão diverso como o que nos encontramos, talvez vários aspectos desse rito antigo não signifiquem para nós mais que simples exotismo. Se assim for, o melhor é deixá-los de lado, preservando apenas o que possuir um real significado e ressonância interior.

SOBRE A PRESENTE TRADUÇÃO

            A tradução que está agora sendo apresentada ao público de língua portuguesa surgiu da iniciativa de Alayde Mutzenbecher junto à Editora Pensamento, em 1979. Alayde, que fora minha aluna em cursos sobre I Ching, na Universidade Cândido Mendes, propôs, após os contatos com a Editora Pensamento, que trabalhássemos juntos na tradução. Teve início então uma jornada que consumiria mais de três anos. Decidimos que Alayde faria primeiramente uma versão, tanto quanto possível literal, do alemão para o português. Nessa versão, as inúmeras dificuldades afluiriam, tanto na busca de uma equivalência para certas expressões, como também na determinação de um específico sentido entre os vários possíveis. Nessa etapa, o texto passava às minhas mãos. Foram também consultadas as traduções inglesa, francesa, argentina e chilena do texto de Wilhelm. Dentre essas traduções, a versão inglesa de Cary F. Baynes, que contou com a revisão de Helmult Wilhelm, requeria especial atenção. A colaboração de Helmut Wilhelm possibilitou a correção de alguns pequenos lapsos existentes no texto alemão, assim como a elucidação de certas passagens mais obscuras. A revisão de Helmut Wilhelm se fez, inclusive, numa época em que novas pesquisas sobre o I Ching traziam à luz dados inexistentes na época em que o trabalho de seu pai se realizou.

            Ao leitor que estiver tomando um primeiro contato com o I Ching, julguei serem úteis alguns esclarecimentos em certas passagens. Para tanto, acrescentei notas, que estão identificadas como relativas à tradução brasileira — o que as distingue, sem risco de dúvida, das notas do texto original.

            Tal como na tradução inglesa, mantivemos a transcrição dos termos chineses de acordo com o sistema Wade, geralmente adotado nos estudos de sinologia.

            Quando o texto parecia ter alcançado seu perfil definitivo, uma nova revisão teve lugar, outra vez com a colaboração de Alayde, que acompanhava, com o texto em alemão, a leitura do texto em português. As passagens mais problemáticas eram anotadas e revistas. Nessas diversas etapas, inúmeras pessoas contribuíram com sugestões, revisões, consultas, de modo que, na realidade, o trabalho de tradução consistiu num esforço conjunto e não na obra isolada de dois indivíduos. A ajuda de todos possibilitou a conclusão do presente texto. Agradecer-lhes, nunca se poderia fazer o bastante, e, creio, seria desnecessário, pois, para todos nós, esteve sempre claro que o trabalho, sem dúvida exaustivo, era também uma oportunidade rara e afortunada de intenso convívio com tão extraordinário acervo de sabedoria. Quanto aos méritos que na presente tradução se possam encontrar, devem-se, sem dúvida, às contribuições de todos os que junto conosco trabalharam. Quanto aos erros que nela subsistem, estes devo assumir pessoal e solitariamente, pois a mim coube a pesada e difícil responsabilidade da palavra final. Procurei de todos os modos evitá-los; nisso coloquei o mais sério empenho, a mais completa dedicação. Não poderia fazê-lo diferente, pois quem ama não sabe negar esforços em favor do que ama. Ao final, resta-me apenas a certeza de que fiz tudo o que me foi possível.

            Aos que estiverem lendo o I Ching pela primeira vez, gostaria de dizer que não se deixem esmorecer diante do que lhes pareça demasiado obscuro. Há de aclarar-se, pois não há noite que dure para sempre. É nesse esforço que se pode aprender a virtude da perseverança, tão enfatizada no Livro das Mutações.

            Ao relermos o I Ching, é necessário e recomendável que estejamos atentos ao perigo do que julgamos demasiado claro. Os dias também findam e o destino de todo saber é conduzir-nos ao não-saber. Só nesse cuidado poderemos cultivar a virtude da modéstia, ressaltada no Hexagrama 15. O estudo do I Ching é um trabalho constante, no qual, mais que um acúmulo de conhecimento, se processa uma crescente conscientização do ignorado. Ao primeiro ano de estudo, em geral julgamos que estamos sabendo muito mais do que antes. Ao décimo ano, em geral descobrimos que desconhecemos o livro muito mais do que julgávamos. Ao início do estudo, procuramos o significado do I Ching através dos textos; a seguir, através dos Kua e, finalmente, na própria vida, da qual surgiram os Kua, dos quais surgiram as palavras. O caminho deve reencontrar o ponto de partida e descobrir que no próprio caminhar tudo se modificou. Que a presente tradução possa tornar acessível, ao maior número de pessoas, o ponto de partida deste extraordinário caminho sem fim, e que o legado do passado possa assim ser transmitido para o futuro.

Gustavo Alberto Corrêa Pinto

Lhassa, 5 de junho de 1982

PREFACIO À PRIMEIRA EDIÇÃO

            Esta tradução do Livro das Mutações teve início há quase dez anos. Quando, depois da revolução chinesa, Tsingtao tornou-se a residência de vários dos mais importantes eruditos chineses da Velha Escola, encontrei entre eles o meu estimado professor Lao Nai Suan, a quem devo não só um aprofundamento no estudo do Ta Hsueh, do Chung Yung, da obra de Mencius, como também a primeira abertura às maravilhas do Livro das Mutações. Fascinado, percorri, sob sua orientação, esse mundo estranho e, no entanto, tão familiar. A tradução era feita depois de detalhado comentário do texto. Do alemão traduziu-se novamente para o chinês, e só aceitávamos a tradução depois de recriado o sentido total do texto. Em meio a esse trabalho eclodiu o horror da Primeira Guerra Mundial. Os eruditos chineses dispersaram-se, e o Sr. Lao viajou para Kufu, terra natal de Confúcio, de cuja família era aparentado.

            Interrompeu-se, então, a tradução do livro, embora meu estudo da antiga sabedoria chinesa não tenha falhado um só dia, mesmo quando trabalhava na Cruz Vermelha chinesa, que dirigi na ocasião do cerco de Tsingtao. Coincidência curiosa: no acampamento, nos arredores da cidade, o general japonês Kamio, comandante do ataque, lia, nos seus momentos de descanso, a obra de Mencius, ao mesmo tempo que eu, um alemão, em minhas horas livres, mergulhava na sabedoria chinesa. O mais feliz de todos, entretanto, era um velho chinês, tão absorto em seus livros sagrados, que nem uma granada caída a seu lado conseguiu tirá-lo de sua tranqüilidade. Ao estender a mão para apanhá-la, pois a granada não havia detonado, recuou rápido ao verificar que ela estava demasiado quente, e retornou a seus livros.

            Tsingtao foi conquistada. Apesar de vários outros trabalhos, consegui algum tempo para dedicar-me à tarefa da tradução, porém o mestre em cuja companhia o trabalho havia começado estava longe e era-me impossível deixar Tsingtao. Foi, por isso, uma grande alegria quando, no meio de minhas perplexidades, recebi uma carta do Sr. Lao, comunicando-me que estava pronto para retomarmos nossos estudos interrompidos. Ele chegou, e finalmente foi terminada a tradução. Foram momentos maravilhosos de enriquecimento interior os que então vivi com o velho mestre. Quando a tradução estava completa em suas linhas gerais, o destino chamou-me de volta à Alemanha; ao mesmo tempo o velho mestre despedia-se deste mundo.

            HABENT SUA FATA LIBELLI — Na Alemanha, quando aparentemente tão distanciado da Antiga Sabedoria Chinesa, muitas palavras de orientação vieram deste misterioso livro, encontrando em mim, vez ou outra, um solo fértil. Foi, portanto, uma agradável surpresa descobrir na casa de um amigo, em Friedenau, uma bela edição do Livro das Mutações, que eu tanto procurara em vão, em Pequim. Esse amigo demonstrou uma verdadeira amizade, e transformou esse encontro feliz numa posse permanente. Desde então o livro me tem acompanhado em muitas viagens, tendo percorrido comigo metade do globo.

            Voltei à China. Novas tarefas me chamavam. Em Pequim um mundo inteiramente novo se abria, com outras pessoas e outros centros de interesse. Ali novamente por diversos caminhos nos veio ajuda e, finalmente, num dia quente de verão, o trabalho foi concluído. Refeito por diversas vezes, o texto afinal tomou uma forma que, mesmo estando longe de responder a meus anseios, dá-me a sensação de poder publicá-lo. Possa o leitor encontrar na verdadeira sabedoria a mesma alegria que tive ao trabalhar nesta tradução.

PEQUIM, VERÃO DE 1923

                                                                                   RICHARD WILHELM

INTRODUÇÃO

          O Livro das Mutações – I Ching em chinês – é, sem dúvida, uma das mais importantes obras da literatura mundial. Sua origem remonta a uma antigüidade mítica, tendo atraído a atenção dos mais eminentes eruditos chineses até os nossos dias. Tudo o que existiu de grandioso e significativo nos três mil anos de história cultural da China ou inspirou-se nesse livro ou exerceu alguma influência na exegese do seu texto. Assim, pode-se afirmar com segurança que uma sabedoria amadurecida ao longo de séculos compõe o I Ching. Não é, pois, de estranhar que essas duas vertentes da filosofia chinesa, o Confucionismo e o Taoísmo, tenham suas raízes comuns aqui. Esse livro lança uma nova luz em muitos segredos ocultos no modo de pensar tantas vezes enigmático desse sábio misterioso, Lao-tse e seus discípulos. O mesmo ocorre em relação a muitas idéias que surgem na tradição confucionista como axiomas aceitos sem serem devidamente examinados.

            Na realidade, não apenas a filosofia da China mas também sua ciência e arte de governar sempre buscaram inspiração na fonte de sabedoria encontrada no I Ching, não sendo, por isso, motivo para surpresa que apenas este dentre todos os clássicos confucionistas tenha escapado à grande queima de livros ocorrida no período de Ch’in Shih Huang Ti. Mesmo os aspectos mais simples da vida cotidiana da China estão embebidos de sua influência. Quando se percorre as ruas de uma cidade chinesa, encontra-se aqui e acolá, numa esquina qualquer, um adivinho sentado diante de uma mesa coberta com um fino tecido, tendo à mão um pincel e uma pequenina tábua, pronto a extrair do antigo livro de sabedoria conselhos e informações relativos às dificuldades da vida diária. Não apenas isso; até mesmo os letreiros que ornamentam as casas, painéis verticais de madeira com pintura em ouro ou laça negra, trazem inscrições cujo estilo floreado reporta sempre a pensamentos ou citações do I Ching. Mesmo os dirigentes políticos de uma nação modernizada como o Japão, famosos por sua astúcia, não desprezam o recurso aos seus conselhos quando confrontados com situações difíceis.

            No curso do tempo, em virtude do grande prestígio de que gozava o Livro das Mutações como expressão de sabedoria, inúmeras doutrinas ocultas – algumas inclusive de correntes não chinesas — vieram a se ligar aos seus ensinamentos. No período das dinastias Ch’in e Han surge a tendência formalista da Filosofia Natural que procurava abarcar, com um sistema de símbolos numéricos, todo o âmbito do pensar. Quando foram reunidas a doutrina dualista do yin-yang, com sua elaboração rigorosa, e a doutrina dos “cinco estados da mutação”, extraída do Livro da História, a Filosofia Chinesa passou a tender a um formalismo cada vez mais rígido. Assim, especulações cabalísticas as mais abstrusas vieram a envolver o Livro das Mutações numa névoa de mistério. Tudo do passado e do futuro foi sendo enquadrado nesse sistema numérico tendo então o I Ching adquirido a reputação de livro de insondável profundidade. E também por culpa dessas especulações que as sementes da ciência natural chinesa, que, sem duvida, existiam no período de Mo Ti e seus discípulos, vieram a desaparecer, sendo substituídas por uma tradição estéril de leitura e escrita, sem qualquer vínculo com a experiência vivência!. Por esse motivo a China veio a apresentar ao Ocidente, durante um longo período, uma imagem de estagnação sem esperanças.

            Porém, não se pode esquecer que, paralelamente a essa numerologia de caráter místico e mecanicista, uma fonte viva de profunda sabedoria humana fluía sempre, através do canal desse livro, para a vida cotidiana da China. Foi isso que possibilitou a maturação da sabedoria milenar que hoje, com certa melancolia, admiramos no remanescente dessa última cultura autóctone.

            O que é, atualmente, o Livro das Mutações? Para que se possa chegar a uma compreensão do livro e seus ensinamentos é necessário afastar o denso emaranhado de interpretações que trouxeram toda sorte de idéias estranhas. Isso é indispensável, quer se esteja lidando com as superstições e mistérios dos antigos magos chineses, quer se trate das teorias não menos supersticiosas dos modernos especialistas europeus que tentam aplicar interpretações oriundas de suas experiências com selvagens primitivos a todas as culturas históricas.1 É necessário tomar como princípio que o Livro das Mutações deve ser explicado à luz de seu próprio conteúdo e do período ao qual pertence. Com isso, a escuridão é perceptivelmente reduzida, podendo-se ver, então, que esta obra, apesar de sua grande profundidade, não oferece dificuldade maior à compreensão que qualquer outro livro que tenha atravessado tão longa história até chegar aos nossos dias.

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I. O USO DO LIVRO DAS MUTAÇÕES

O Livro dos Oráculos

            No início, o Livro das Mutações consistia numa coleção de signos usados como oráculos.2 Na antigüidade, em toda parte usavam-se oráculos. Os mais antigos restringiam-se às respostas “sim” e “não”. Essa forma de expressão oracular foi também a base do Livro das Mutações. “Sim” era indicado por uma linha simples, inteira ( _______ ), e “Não”, por uma linha partida ( ____  ____ ). Entretanto, já muito cedo parece que se percebeu a necessidade de uma diferenciação maior e as linhas, antes isoladas, foram combinadas em pares:

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1 É necessário mencionar, como curiosidade, a tentativa grotesca e amadorística do Rev. Canon McCIatchie, M. A., de aplicar a chave de uma “mitologia comparativa” ao I Ching. Seu livro foi publicado em 1876 com o título “A translation of the Confucian Yi King or the Classic of Changes, with Notes and Appendix”.

2 Como será demonstrado a seguir, o Livro das Mutações não era um léxico, como julgam alguns autores.

             A cada uma dessa combinações adicionou-se uma terceira linha. Assim surgiram os oito trigramas. 3 Esses oito trigramas foram concebidos como imagens de tudo o que ocorre no céu e na terra. Sustentava-se também que eles sempre se acham num estado de contínua transição, passando de um a outro, assim como uma transição sempre está ocorrendo, no mundo físico, de um fenômeno para outro. Aqui se tem o conceito fundamental do Livro das Mutações. Os oito trigramas são símbolos que representam mutáveis estados de transição. São imagens que estão em constante mutação. Focalizam-se não as coisas, em seus estados de ser — como acontece no Ocidente -, mas os seus movimentos de mutação. Os oito trigramas, portanto, não são representações das coisas enquanto tais, mas de suas tendências de movimento.

            Essas oito imagens vieram a adquirir múltiplos significados. Representavam certos processos na natureza, correspondentes às suas próprias características. Representavam, ainda, uma família, composta de pai, mãe, três filhos, não no sentido mitológico em que os deuses gregos povoavam o Olimpo, mas no que poderia ser chamado de sentido abstrato, ou seja, expressando não entidades objetivas, mas funções.

Considerando-se rapidamente estes oito símbolos que formam as bases do Livro das Mutações chega-se à seguinte classificação:

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3   as estruturas formadas por três linhas, assim como as formadas por seis linhas, são ambas denominadas em chinês “Kua”. Esse termo foi traduzido por Wilhelm como “Zeichen”, “signo”. Deu-se preferência, num caso e noutro, aos termos “trigrama” e “hexagrama”, usados por James Legge em ‘The Yi King”, uma vez que, assim, evita-se uma problemática ambigüidade. A tradução inglesa, a tradução chilena e a tradução francesa adotaram esse mesmo procedimento. (Nota da tradução brasileira.)

            Os filhos representam o princípio do movimento em seus vários estágios — o inicio do movimento, o perigo no movimento, o repouso e fim do movimento. As filhas representam a devoção em suas várias etapas — a suave penetração, a clareza e adaptabilidade e, por fim, a alegre tranqüilidade.

            De modo a abranger uma multiplicidade ainda maior, essas oito imagens, numa data muito remota, foram combinadas uma com as outras, quando então se obteve um total de 64 signos. Cada um desses signos consiste de seis linhas positivas ou negativas. Cada linha é considerada como sendo passível de mudança, e sempre que uma linha muda toda a situação representada pelo hexagrama muda também. Tomemos, por exemplo, o hexagrama K’un, RECEPTIVO, terra:

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            Ele representa a natureza da terra, a abnega ção poderosa. Quanto às estações, corresponde ao final do outono, quando todas as forças da vida encontram-se em repouso. Se a linha inferior muda, surge o hexagrama Fu, RETORNO:

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            Ele representa o trovão, o movimento que volta a agitar-se no interior da terra, na época do solstício. Simboliza o retorno da luz.

            Como esses exemplos demonstram, nem todas as linhas de um hexagrama mudam necessariamente. Isso depende por completo do caráter de uma dada linha. Uma linha cuja natureza é positiva,4 com um aumento de seu dinamismo transforma-se no oposto, numa linha negativa, enquanto que uma linha positiva de menor força não sofre essa mudança. O mesmo princípio se aplica às linhas negativas.

            Informações mais detalhadas sobre essas linhas — que se encontram tão intensamente carregadas de energia positiva ou negativa que tendem a mudar – serão encontradas no Livro Segundo no Grande Tratado (parte I, capítulo IX) e na seção especial sobre o uso do oráculo, ao final do Livro Terceiro. Será suficiente, por enquanto, dizer-se que linhas positivas móveis são designadas pelo número 9 e linhas negativas móveis, pelo número 6. As linhas que não são móveis funcionam apenas como material de estruturação do hexagrama, sem um significado intrínseco seu, e são representadas pelos números 7 (positivas) e 8 (negativas). Assim, quando no texto se lê “Nove na primeira posição significa…” equivale a dizer “Quando a linha positiva na primeira posição é representada por um nove, tem o seguinte significado…”. Se, por outro lado, a linha for representada pelo número 7, não deve ser considerada ao se interpretar o oráculo. O mesmo princípio se aplica às linhas representadas pelos números 6 e 8, respectivamente.

            Pode-se obter o hexagrama antes mencionado – K’un, O RECEPTIVO – da seguinte forma:s

4    Positivo ou negativo aqui não tem qualquer caráter qualitativo em termos de bom e mau. Representam apenas as tendências de movimento e repouso do Criativo e do Receptivo que, mais tarde, viriam a inspirar as noções do yang e yin. (Nota da tradução brasileira.)

5    Como será visto na nota n° 6 do Livro Primeiro, todo hexagrama é considerado como iniciando-se em baixo e concluindo-se no alto. Por isso, a primeira linha é a linha inferior. (Nota da tradução brasileira.)

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            Assim sendo, as cinco linhas superiores não são consideradas na interpretação. Assim, o seis na primeira posição tem um significado independente e, em virtude de sua mudança para a condição contrária, a situação de K’un, O RECEPTIVO,

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            torna-se a situação de Fu, RETORNO:

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            Desse modo tem-se uma série de situações simbolizadas pelas linhas enquanto que pela mudança dessas linhas as situações mudam umas para as outras. Por outro lado, essa mudança não é obrigatória pois quando um hexagrama se compõe apenas de linhas representadas pelos números 7 e 8 não há mudança em seu interior e só se considera seu aspecto global.

            Além da lei da mutação e das imagens dos estados de mutação apresentados pelos sessenta e quatro hexagramas, outro fator a ser considerado é o curso da ação. Cada situação exige uma forma de ação que lhe seja adequada. Em cada situação há um caminho de ação cujo curso é correto e outro cujo curso é errado. E claro que o curso correto traz boa fortuna e o errado, infortúnio. Qual, então, é o caminho correto em cada caso dado? Esta questão era o fator decisivo e graças a ela o I Ching transcendeu a condição de um livro comum de adivinhação. Se um adivinho ao ler cartas diz à sua cliente que, dentro de uma semana, ela receberá uma carta com dinheiro da América, não há nada que essa mulher possa fazer senão esperar que a carta chegue, ou não chegue. Nesse caso, o que se prevê é a sorte, que em muito independe do que o indivíduo possa fazer ou não. Por isso a previsão da sorte carece de importância moral. Quando, um dia, pela primeira vez na China, alguém ao receber uma previsão sobre o futuro não deixou que a questão parasse nesse ponto mas se perguntou “o que devo fazer?”, o livro divinatório tornou-se livro de sabedoria.

            Estava reservado ao Rei Wen, que viveu em torno de 1150 a.C, e a seu filho, Duque de Chou, que realizassem essa mudança.6 Eles dotaram os hexagramas e as linhas, até então mudos, dos quais o futuro era previsto em cada caso como um assunto individual, de conselhos preciosos quanto à conduta correta. Assim, o indivíduo vem a tornar-se co-autor de seu destino, uma vez que suas ações intervém como fatores determinantes dos acontecimentos do mundo, e o fazem, de maneira ainda mais decisiva, quanto mais cedo, com a ajuda do Livro das Mutações, ele puder identificar as situações ainda em sua fase embrionária, pois esse é o momento crucial. Enquanto as coisas estão nos primórdios podem ser controladas, mas uma vez desenvolvidas até as últimas conseqüências ganham um poder.

6    Essa é a tese sustentada pela tradição chinesa. Alguns, autores questionam sua validade. Cf. lulian K. Shchutskii. Researches on the I Ching. Princeton University Press, Bollingen Series LXII 2, 1979. (Nota da tradução brasileira.)

O Livro de Sabedoria

            De importância muito maior que o uso oracular é o uso do Livro das Mutações como Livro de Sabedoria. Lao-Tse conheceu esse livro e alguns de seus mais profundos aforismos nele se inspiraram. Confúcio também teve contato com o I Ching, ao qual dedicou longa reflexão. Ele provavelmente redigiu alguns dos comentários de interpretação encontrados no I Ching, enquanto que outra parte desses comentários deve ter transmitido a seus discípulos em aulas.8 Foi a versão do Livro das Mutações editada e comentada por Confúcio que chegou até o nosso tempo.

            Procurando-se os conceitos básicos que permeiam o livro, pode-se permanecer dentro dos limites de alguns poucos porém amplos conceitos.

            A idéia subjacente a todo o conjunto é a de mutação. Nos Analetos diz-se que Confúcio, diante de um rio, disse: “Tudo segue, fluindo, como esse rio, sem cessar, dia e noite”. Isso exprime a idéia de mutação. Aquele que percebe o significado da mutação, fixa sua atenção não mais sobre os entes transitórios e individuais, mas sobre a imutável e eterna lei que atua em toda mutação. Essa lei é o Tao9 de Lao-Tse,

7     Sobre o método de divisão dessas varetas para a consulta oracular, v. os apêndices referentes ao uso dos oráculos do I Ching. (Nota da tradução brasileira.)

8    O contato de Confúcio com o I Ching, apesar de sustentado pela autoridade da tradição, foi muitas vezes questionado mesmo na China. Ou-yang Hsiu (1017-1072 d.C), em sua obra “I T’ung Tzu-wen”, afirma que não há qualquer conexão entre Confúcio e o I Ching, ou mesmo as Dez Asas. (Nota da tradução brasileira.)

9      Aqui, como em outras passagens, Wilhelm usa o termo “Sinn” (sentido) para traduzir o termo chinês Tao. Na tradução inglesa chama-se a atenção para o trecho em que Wilhelm justifica essa escolha em sua tradução do Tao Te Ching de Lao-Tse (Tao Te King: das Buch des Alten von Sinn und Leben. 3? ed. Düsseldorf e Colônia, 1952). Como no período entre 1923, época da primeira edição da tradução de Wilhelm, e o nosso momento, o termo ‘Tao” veio a tornar-se de uso corrente nas traduções e estudos de textos chineses, e tendo sido inclusive muito debatida a questão de sua possibilidade de versão para línguas ocidentais, julgou-se preferível manter o termo chinês. (Nota da tradução brasileira.)

o curso das coisas, o princípio Uno no interior do múltiplo. Para que possa tornar-se manifesto é necessário uma decisão, um postulado. Esse postulado fundamental é o ‘”Grande princípio primordial” de tudo que existe, “t’ai chi” — que no sentido original significa “viga mestra”. Essa idéia de um princípio primordial foi tema de muitas reflexões por parte dos filósofos chineses posteriores. Wu Chi, um princípio ainda anterior a t’ai chi, era simbolizado por um círculo. Segundo essa concepção, t’ai chi era representado por um círculo dividido em luz e escuridão, yang e yin: k . Esse símbolo também teve um papel importante na índia e na Europa. No entanto, especulações dualistas de caráter gnóstico são estranhas ao pensamento do I Ching em sua origem. Ele afirma apenas a viga mestra, a linha. Com essa linha, que em si mesma representa a unidade, a dualidade surge no mundo, pois a linha determina, ao mesmo tempo, o acima e o abaixo, a direita e a esquerda, adiante e atrás – em suma, o mundo dos opostos.

            Esses opostos tornaram-se conhecidos com os nomes de Yin e Yang, tendo causado grande sensação em especial no período de transição entre as dinastias Ch’in e Han, nos séculos que precederam a era cristã, quando havia toda uma escola de doutrina do Yin e Yang. Nessa época, o Livro das Mutações era muito usado como um livro de magia e as pessoas liam nos seus textos toda sorte de coisas misteriosas, as quais, entretanto, eram inteiramente estranhas à sua origem. Essa doutrina do Yin e Yang, do feminino e do masculino como princípios primordiais, atraiu, é claro, muito interesse entre os estrangeiros estudiosos do pensamento chinês. Seguindo uma tendência muito comum, alguns deles julgaram encontrar nessa doutrina um simbolismo fálico, com todas as suas decorrências.

            Para desapontamento de tais descobridores é preciso dizer que não há qualquer indício disso na origem do significado dos termos yin e yang. Em seu sentido original yin significa “o nebuloso”, “o sombrio”, e yang significa na realidade “estandartes tremulando ao sol” 10, ou seja, algo que “brilha”, ou “luminoso”. Esses dois conceitos foram transferidos e aplicados ao lado iluminado e ao sombrio de uma montanha ou rio. No caso de uma montanha a vertente sul é o lado iluminado e a do norte, o lado sombrio, enquanto que no caso de um rio visto do alto o lado norte é o iluminado (yang), pois reflete a luz, e o sul é o lado sombrio (yin). Assim, as duas expressões foram trazidas ao Livro das Mutações e aplicadas aos dois alternantes estados fundamentais de ser. Deve-se indicar, no entanto, que os termos Yin e Yang não aparecem com este sentido nem nos textos propriamente do livro; nem nos comentários mais antigos. Sua primeira ocorrência se dá no Grande Tratado, o qual, em alguns trechos, evidencia uma influência taoísta. No Comentário sobre a Decisão os termos usados para os opostos são “o firme” e “o maleável”, e não yang e yin.

            Porém, não importa que nomes sejam aplicados a essas forças, o certo é que a existência surge da sua mutação e interação. Assim, a mutação é concebida como sendo, em parte, a contínua mudança de uma força em outra e, em parte, como um ciclo fechado de acontecimentos complexos, conectados entre si, como o dia e a noite, o verão e o inverno. A mutação não é desprovida de sentido – se o fosse não seria possível formular qualquer conhecimento a seu respeito —, mas está sujeita à lei universal, o Tao.

            O segundo tema fundamental no Livro das Mutações é sua teoria das idéias. Os oito trigramas não são tanto imagens de objetos mas de estados de mutação. Essa concepção está associada ao conceito expresso nos ensinamentos de Lao-Tse e Confúcio de que todo acontecimento no mundo visível é um efeito de uma “imagem”, isto é, de uma idéia num mundo invisível. Desse modo, tudo o que ocorre na terra é apenas uma reprodução, por assim dizer, de um acontecimento num mundo situado além de nossas percepções sensoriais; quanto à sua ocorrência no tempo, é sempre posterior ao evento supra-sensível. Os homens santos e sábios, estando em contato com aquelas esferas mais elevadas, têm acesso a essas idéias através de uma intuição direta, e, assim, podem intervir de maneira decisiva nos acontecimentos no mundo. Desse modo, o homem está ligado ao céu, o mundo supra-sensível das idéias, e à terra, o mundo material das coisas visíveis, formando com eles a tríade dos poderes primordiais.

10   Cf. os importantes comentários de Liang Ch’i Chão no jornal chinês The Endeavor, 15 e 22 de julho de 1923, como também o ensaio em inglês de B. Schindler. “The development of the Chinese conceptions of Supreme Beings”. Ásia Major, Hirth Anniversary Volume (London: Probsthain), p. 298-366.

            Essa teoria das idéias aplica-se em dois sentidos. O Livro das Mutações mostra as imagens dos acontecimentos como também o vir a ser das situações in statu nascendi. Assim, discernindo, graças à sua ajuda, as sementes do porvir, o homem pode prever o futuro do mesmo modo que compreender o passado. Dessa forma, as imagens em que os hexagramas se fundamentam servem como modelos para uma ação oportuna nas condições indicadas. Não só, com isso, torna-se possível sua adaptação ao curso da natureza como, inclusive, no Grande Tratado (parte II, capítulo II) se procuram as origens de todas as práticas e inventos da civilização nessas idéias e imagens arquetípicas. Apesar da hipótese poder ou não ser aplicada a todas as circunstâncias específicas, o conceito básico contém uma verdade.11

            O terceiro elemento fundamental ao Livro das Mutações são os julgamentos. Os julgamentos como que vestem as imagens com palavras. Indicam se uma ação trará boa fortuna ou infortúnio, remorso ou humilhação. Os julgamentos possibilitam ao homem a liberdade para decidir desistir de um curso de ação, que é indicado pela situação do momento, mas que seria prejudicial a longo prazo. Dessa forma ele se torna independente da tirania dos acontecimentos. O Livro das Mutações, em seus julgamentos e nas interpretações que o acompanham do tempo de Confúcio em diante, abre ao leitor o mais rico tesouro da sabedoria chinesa. Ao mesmo tempo lhe oferece uma visão abrangente da diversidade das experiências humanas habilitando-o, em virtude dessa perspectiva, a estruturar sua vida segundo sua vontade soberana, de modo a torná-la um todo orgânico, dirigindo-se assim à harmonia com o derradeiro Tao, em que estão enraizados todos os seres.

11     Cf. os importantíssimos debates de Hu Shih em The Development of the Logical Method in Ancient China. 2a. ed. New York, Paragon, 1963; e a discussão ainda mais detalhada no primeiro volume de sua História da Filosofia (Chung-Kuo che-hsüeh-shih ta-kang. v.l).

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II. A HISTORIA DO LIVRO DAS MUTAÇÕES

            Na literatura chinesa, quatro sábios são citados como autores do Livro das Mutações: respectivamente Fu Hsi, Rei Wen, o Duque de Chou e Confúcio. Fu Hsi é uma figura lendária que representa a era da caça e da pesca, devendo-se a ele também o hábito de cozer os alimentos. O fato de ser ele indicado como o inventor dos signos lineares do Livro das Mutações significa que lhes é atribuída uma tal antigüidade que antecede à memória histórica. Além disso, os oito trigramas têm nomes que não aparecem em qualquer outra passagem na língua chinesa, razão pela qual julgou-se que tivessem origem estrangeira. De qualquer modo, não são caracteres arcaicos como alguns autores foram levados a crer pela semelhança em parte acidental, em parte intencional com um ou outro ideograma antigo.12

            Já desde um período muito remoto que os trigramas aparecem em várias combinações. Duas compilações que tiveram origem na antigüidade são mencionadas: primeiro, o Livro das Mutações da dinastia Hsia chamado Lien Shan que, segundo consta, principiava com o hexagrama Kên, “A QUIETUDE”, montanha; segundo, o Livro das Mutações que data da dinastia Shang intitulado Kuei Ts’ang, que começava com o hexagrama K’un, “O RECEPTIVO”. Este último é mencionado numa breve referência feita por Confúcio, que supunha sua historicidade. É difícil saber se os nomes dos sessenta e quatro hexagramas existiam já naquela época e, em caso positivo, se eram os mesmos que hoje constam do Livro das Mutações.

            Segundo a tradição geralmente aceita, sobre a qual não temos motivo para levantar suspeitas, a atual compilação dos sessenta e quatro hexagramas teve sua origem com o Rei Wen, antecessor da dinastia Chou. Diz-se que ele acrescentou breves julgamentos aos hexagramas durante o período em que esteve aprisionado por ordem do tirano Chou Hsin. O texto relativo às linhas foi redigido por seu filho, o Duque de Chou. Sob essa forma, e com o título de “As Mutações de Chou” (Chou I), foi usado como oráculo durante o período da dinastia Chou como demonstram vários antigos registros históricos.

            Essa era a forma do Livro quando Confúcio o encontrou. Já com idade avançada dedicou-lhe um intenso estudo, sendo muito provável que o Comentário sobre a Decisão (T’an Chuan) seja trabalho seu. O Comentário sobre a Imagem também reporta a ele, ainda que menos diretamente. De um terceiro tratado, um importante e detalhado comentário sobre as linhas, compilado por seus discípulos ou sucessores sob a forma de perguntas e respostas, restam apenas fragmentos. (Alguns encontram-se na seção intitulada Wên Yen — Comentário às Palavras do Texto —, outros estão no Ta Chuan – O Grande Tratado.)

            Dentre os seguidores de Confúcio parece que foi principalmente Fu Shang (Tzu Hsia) que difundiu o conhecimento do Livro das Mutações. Com o desenvolvimento da especulação filosófica, como se vê no “Ya Hsueh” e no “Chung Yung’ , esse tipo de filosofia exerceu uma influência cada vez maior na interpretação do Livro das Mutações. Toda uma filosofia se desenvolveu em torno do Livro, do qual fragmentos – alguns mais antigos, outros mais recentes – encontram-se nas chamadas “Dez Asas”. Elas diferem muito entre si quanto ao conteúdo e valor intrínseco.

            O Livro das Mutações escapou ao destino dos outros Clássicos na época da famosa queima de livros ordenada pelo tirano Ch’in Shih Huang Ti. Caso houvesse algum fundo de realidade na lenda de que esse incêndio seria o único responsável pela mutilação dos textos dos antigos tratados, o I Ching, pelo menos, deveria estar intacto; mas não é esse o caso. Na verdade, as vicissitudes dos séculos, o colapso das culturas tradicionais e a mudança no sistema de escrita é que são responsáveis pelos danos sofridos por todas as obras da antigüidade.

            Após o Livro das Mutações ter se celebrizado como um tratado divinatório e de magia no período de Ch’in Shih Huang Ti, a escola de magos (fang shih) das dinastias Ch’in e Han veio a se apoderar dele. A doutrina do Yin-yang, que foi, provavelmente, introduzida pela obra de Tsou Yen e depois promovida por Tung Chung Shu, Liu Hsin e Liu Hsiang, cometeu toda sorte de excessos na interpretação do I Ching.

12   Em especial no caso do trigrama K’an ( Iching-09.jpg ), que lembra o ideograma de “água”,       Shui.

III. A ORGANIZAÇÃO DA TRADUÇÃO

       A tradução do Livro das Mutações obedeceu a princípios cujo conhecimento facilitará muito a leitura.

            A tradução do texto procurou a forma mais breve e concisa possível de modo a manter-se a impressão de arcaísmo que o original chinês transmite. Isso tornou ainda mais necessária a apresentação não só do texto mas também de um extrato dos principais comentários chineses. Essa sinopse procurou ser a mais sucinta possível, trazendo uma perspectiva abrangente das maiores contribuições dos especialistas chineses para a compreensão do livro. Comparações com textos ocidentais13 que em muitas passagens pareciam sugestivas, assim como meus próprios pontos de vista, foram acrescentados só ocasionalmente e sempre de forma a serem identificados, sem risco de dúvidas, como tais. O leitor, portanto, pode considerar o texto e os comentários como autênticas expressões do pensamento chinês. Chama-se a atenção em especial a este fato, pois várias das verdades fundamentais aqui apresentadas coincidem a um tal ponto com preceitos cristãos que com freqüência surpreendem.

            De modo a facilitar o mais possível a compreensão do I Ching ao leitor leigo no assunto, os textos dos sessenta e quatro hexagramas junto com as interpretações correspondentes foram apresentados no Livro Primeiro. Recomenda-se, pois, que a leitura comece por esta parte procurando fixar sua atenção nas idéias e evitando enredar-se com as formas e imagens. Por exemplo, deve-se seguir a idéia do Criativo em seu desenvolvimento gradual — tal como se descreve de maneira magistral no primeiro hexagrama —, aceitando-se, por ora, o simbolismo do dragão. Assim se poderá chegar a formar uma idéia do que a sabedoria chinesa tinha a dizer sobre diversas situações de vida.

13     Assim como outras traduções, omitiu-se aqui um grande número de citações de poetas alemães (em especial Goethe), uma vez que tais passagens perdem grande parte de sua pertinência quando traduzidas. (Nota da tradução brasileira.)

            Os Livros Segundo e Terceiro explicam por que tudo isso é assim. Aqui foi reunido o material essencial à compreensão da estrutura dos hexagramas. Selecionou-se apenas o que é absolutamente necessário, procurando-se recorrer às fontes mais antigas, tal como foram preservadas nas Dez Asas. Esses comentários, na medida do possível, foram separados e distribuídos junto aos textos aos quais se referem, de modo a facilitar sua compreensão, uma vez que a essência de seu conteúdo fora já utilizada antes no sumário dos comentários no Livro Primeiro. Com isso, para aquele que procura mergulhar nas profundezas da sabedoria do Livro das Mutações, os Livros Segundo e Terceiro são indispensáveis. Por outro lado, é preferível que o poder de compreensão do leitor ocidental não seja sobrecarregado logo ao início com um excesso de material que lhe é ainda estranho. Por conseguinte, não foi possível evitar certas repetições; mas isso pode ajudar a que se chegue a uma compreensão plena do Livro. Estou firmemente convencido de que quem quer que assimile a essência do Livro das Mutações se verá enriquecido, por isso, tanto em experiência quanto no verdadeiro entendimento da vida.

Richard Wilhelm

PREFÁCIO DE C. G. JUNG1

            Não sendo um sinólogo, meu prefácio ao Livro das Mutações terá que ser um testemunho da experiência pessoal com esse grande e único livro. Ao mesmo tempo terei a grata oportunidade de homenagear também a memória de meu falecido amigo Richard Wilhelm. Ele próprio tinha profunda consciência da importância cultural de sua tradução do I Ching, versão sem paralelo no mundo Ocidental.

            Se o significado do Livro das Mutações fosse de fácil apreensão, a obra não precisaria de um prefácio. Mas sem dúvida esse não é o caso, já que há tantos pontos enigmáticos em seu conteúdo que os estudiosos ocidentais tenderam a considerá-lo como um conjunto de “fórmulas mágicas” que, ou seriam abstrusas demais para serem inteligíveis, ou careceriam de todo valor. A tradução de Legge do I Ching, até agora a única versão disponível em inglês, pouco contribuiu para tornar a obra mais acessível à mente ocidental.2 Wilhelm, entretanto, fez o esforço possível para abrir o caminho à compreensão do simbolismo do texto. Ele tinha condições de fazê-lo, pois a filosofia e o uso do I Ching foram-lhe ensinados pelo venerável sábio Lao-Naihsüan; além disso, durante um período de vários anos havia posto em prática a peculiar técnica do oráculo. A apreensão do sentido vivo do texto dá à sua versão do I Ching uma profundidade de perspectiva que um conhecimento exclusivamente acadêmico da filosofia chinesa nunca poderia proporcionar.

            Tenho uma enorme dívida para com Wilhelm pelo esclarecimento que trouxe à complicada problemática do I Ching e também pelas intuições relativas à sua aplicação prática. Por mais de 30 anos, interessei-me por essa técnica oracular, ou método de explorar o inconsciente, que pareceu-me de excepcional significado. Já estava bastante familiarizado com o I Ching quando conheci Wilhelm no começo da década de 20; ele confirmou o que eu já sabia, além de ensinar-me muito mais.

            Desconheço a língua chinesa e nunca estive na China. Posso afirmar ao meu leitor que é muito difícil encontrar o correto modo de acesso a esse monumento do pensamento chinês tão distante de nossa forma de pensar. De modo a poder compreender de que trata esse livro, é indispensável deixar de lado certos preconceitos da mente ocidental. É curioso que um povo tão dotado e inteligente como o chinês nunca tenha desenvolvido o que chamamos ciência. Nossa ciência, entretanto, é baseada no princípio da causalidade, o qual é considerado uma verdade axiomática. Mas uma grande mudança está ocorrendo em nosso ponto de vista. O que a “Crítica da Razão Pura” de Kant não conseguiu, está sendo realizado pela física moderna. Os axiomas da causalidade estão sendo abalados em seus fundamentos: sabemos agora que o que denominamos leis naturais são meramente verdades estatísticas que supõem, necessariamente, exceções. Ainda não nos apercebemos que necessitamos do laboratório com suas decisivas limitações para demonstrar a validade invariável das leis naturais. Se deixarmos a natureza agir, veremos um quadro muito diferente: o acaso vai interferir total ou parcialmente em todo o processo, tanto assim que, em circunstâncias naturais, uma seqüência de fatos que esteja em absoluta concordância com leis específicas constitui quase uma exceção.

1    O prefácio de Jung foi redigido a pedido de Cary F. Baynes para a primeira edição da tradução inglesa do I Ching. Esse prefácio não consta da edição alemã usada para a presente tradução. O texto de Jung foi traduzido da edição da Bollingen Series XIX, Princeton University Press, 1972. {Nota da tradução brasileira.)

2     Legge faz o seguinte comentário sobre o texto explicativo das linhas: “De acordo com nossas noções, um criador de símbolos deveria ter muito de um poeta, mas aqueles do Yi nos sugerem apenas uma completa aridez. De um total de mais de trezentas e cinqüenta, a maior parte das afirmações podem ser consideradas simplesmente grotescas”. (The Sacred Books of the East, XVI: the Yi King. 2aed. Oxford, Clarendon Press, 1899, p. 22.) A respeito das “Lições” dos hexagramas, o mesmo autor diz: “Mas por que, poder-se-ia perguntar, deveriam nos ser transmitidas através de uma tal disposição de figuras lineares e em tal miscelânea de representações simbólicas”, (Ibid. p. 25.) No entanto, em nenhum trecho é dito se Legge alguma vez se deu ao trabalho de colocar o método à prova, num teste prático.

            A mente chinesa, como a vejo trabalhando no I Ching, parece preocupar-se exclusivamente com o aspecto casual dos acontecimentos. O que chamamos de coincidência parece ser o interesse primordial desta mente peculiar e o que cultuamos como causalidade passa quase desapercebido. Devemos admitir que há muito a dizer a respeito da imensa importância do acaso. Uma quantidade incalculável do esforço do homem visa a combater e limitar os incômodos ou perigos representados pelo acaso. Considerações teóricas de causa e efeito freqüentemente parecem fracas e pobres em comparação com os resultados práticos do acaso. É correto dizer que o cristal de quartzo é um prisma hexagonal. A afirmação é verdadeira quando se considera um cristal ideal; entretanto, na natureza não se encontram dois cristais exatamente iguais, ainda que todos sejam inequivocamente hexagonais. A forma concreta, no entanto, parece interessar mais ao sábio chinês que a forma ideal. O emaranhado de leis naturais que constitui a realidade empírica é mais significativo para ele que uma explicação causai de fatos que, além disso, em geral devem ser separados uns dos outros para que possam ser adequadamente tratados.

            A maneira como o I Ching tende a encarar a realidade parece não favorecer nossa maneira causai de proceder. O momento concretamente observado apresenta-se à antiga visão chinesa, mais como um acontecimento fortuito que o resultado claramente definido de um concordante processo causai em cadeia. A questão que interessa parece ser a configuração formada por eventos casuais no momento da observação e de modo nenhum as hipotéticas razões que aparentemente justificam a coincidência. Enquanto a mente ocidental cuidadosamente examina, pesa, seleciona, classifica e isola, a visão chinesa do momento inclui tudo até o menor e mais absurdo detalhe, pois tudo compõe o momento observado.

            Assim ocorre quando são jogadas as três moedas, ou quando se contam as 49 varetas; esses detalhes casuais entram no quadro do momento de observação e fazem parte dele – uma parte que para nós é insignificante, porém para a mente chinesa é de suma importância. Seria para nós uma afirmação banal e quase sem sentido (pelo menos à primeira vista) dizer que tudo que acontece num determinado momento tem inevitavelmente a qualidade peculiar àquele momento. Esse não é um argumento abstrato mas, ao contrário, muito prático. Alguns especialistas são capazes de determinar só pelo aspecto, gosto e comportamento de um vinho a sua procedência e o ano de sua origem. Existem conhecedores de antigüidades que podem afirmar com extraordinária precisão a data, o lugar de origem e o autor de um “objet d’art” ou de um móvel, simplesmente olhando-os. Existem astrólogos que podem dizer a uma pessoa, sem nenhum conhecimento prévio, a data de seu nascimento, qual era a posição do sol e da lua, e qual o signo que se encontrava sobre o horizonte no momento de seu nascimento. Diante de tais fatos é preciso admitir que os momentos podem deixar marcas duradouras.

            Em outras palavras, quem quer que tenha inventado o I Ching estava convencido de que o hexagrama obtido num determinado momento coincidia com esse momento tanto em qualidade quanto em tempo. Para ele o hexagrama era o intérprete do momento no qual era tirado — mais que as horas do relógio ou as divisões de um calendário -, uma vez que o hexagrama era compreendido como sendo o indicador da situação essencial que prevalecia no momento de sua origem.

           Essa suposição envolve um certo princípio curioso que denominei sincronicidade,3 conceito este que formula um ponto de vista diametralmente oposto ao da causalidade. A causalidade enquanto uma verdade meramente estatística não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros, enquanto que, para a sincronicidade, a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores.

            O pensamento tradicional chinês apreende o cosmos de um modo semelhante ao do físico moderno, que não pode negar que seu modelo do mundo é uma estrutura decididamente psicofísica. O fato microfísico inclui o observador tanto quanto a realidade subjacente ao I Ching abrange a subjetividade, isto é, as condições psíquicas dentro da totalidade da situação momentânea. Assim como a causalidade descreve a seqüência dos acontecimentos, a sincronicidade, para a mente chinesa, lida com a coincidência de eventos.

            O ponto de vista causai nos relata uma dramática história sobre como .D chegou à existência: originou-se de C que existia antes de D, e C, por sua vez, teve um pai,B, etc. Por outro lado, a visão da sincronicidade tenta produzir uma representação igualmente significativa da coincidência. Como é que A, B, C, D, etc. aparecem todos no mesmo momento e no mesmo lugar? Isso acontece, em primeiro lugar, porque os eventos físicos A e B são da mesma qualidade dos eventos psíquicos C e D, e ainda porque todos são intérpretes de uma única e mesma situação momentânea. Assume-se que a situação representa um quadro legível ou compreensível.

            Os 64 hexagramas do I Ching são o instrumento pelo qual se pode determinar o significado de 64 situações diferentes, porém típicas. Essas interpretações são equivalentes a explicações causais. A conexão causai é estatisticamente necessária e pode, portanto, ser submetida à experiência. Uma vez que as situações são únicas e não podem ser repetidas, não parece ser possível, em condições normais,4 realizar experiências com a sincronicidade. No I Ching, o único critério de validade da sincronicidade é a opinião do observador de que o texto do hexagrama equivale a uma interpretação fiel de sua condição psíquica. Supõe-se que a queda das moedas ou o resultado da divisão do conjunto de varetas de caule de milefólio é o que necessariamente deve ser uma “situação” dada, já que qualquer coisa que aconteça naquele momento pertence a ele como parte indispensável do quadro. Se um punhado de fósforos é jogado no chão, eles formam o padrão característico daquele momento. Porém, uma verdade tão óbvia como essa só revela seu caráter significativo se for possível ler o padrão e verificar sua interpretação, em parte pelo conhecimento, do observador, da situação objetiva e da subjetiva e, em parte, pelo caráter dos fatos subseqüentes. Obviamente esse não é um procedimento que atraia uma mente crítica, acostumada à verificação experimental de fatos ou à evidência factual. Mas para alguém que goste de olhar o mundo segundo a perspectiva da antiga China, o I Ching pode exercer alguma atração.

3     Cf. “Sincronicity: An Acausal Connecting Principie”. The Structure and Dynamics of the Psyche. (Col. das obras de C. G. Jung, v. 8.)

4     Cf. J. B. Rhine. The Reach of the Mind. New York – London, 1928.

            Meu argumento, tal como foi exposto acima, jamais, é claro, ocorreu à mente chinesa. Ao contrário, de acordo com a antiga tradição, são “agentes espirituais”, atuando de uma forma misteriosa, que fazem com que as varetas de caule de milefólio dêem uma resposta significativa.5 Esses poderes constituem como que a alma viva do livro, que é, portanto, uma espécie de ser vivo, e a tradição supõe que se podem fazer perguntas ao I Ching e esperar receber respostas inteligentes. Ocorreu-me, portanto, que talvez interesse ao leitor não iniciado ver o I Ching operando. Com esse propósito realizei uma experiência rigorosamente de acordo com a concepção chinesa: personifiquei, de certo modo, o livro, perguntando seu julgamento sobre sua situação atual, isto é, sobre minha intenção de apresentá-lo à mente ocidental.

            Ainda que esse procedimento se enquadre perfeitamente nas premissas da filosofia Taoísta, para nós ele parece demasiado extravagante. Entretanto, nem mesmo o insólito dos delírios doentios ou superstições primitivas jamais me chocaram. Sempre tentei permanecer livre de preconceitos e curioso — rerum novarum cupidus. Por que não ousar um diálogo com um antigo livro que se propõe como algo vivo? Não pode haver mal nenhum nisso, e o leitor poderá observar um procedimento psicológico que tem sido posto em prática vezes e mais vezes através dos milênios da civilização chinesa, representando para homens como Confúcio ou Lao-tse tanto a expressão suprema da autoridade espiritual quanto um enigma filosófico. Utilizei o método de moedas e a resposta obtida foi o hexagrama 50 – Ting, O CALDEIRÃO.

            De acordo com a maneira como foi formulada minha pergunta, deve-se entender o texto do hexagrama como se o próprio I Ching fosse a pessoa que fala. Assim, ele descreve a si próprio como um caldeirão, isto é, como um recipiente de ritual contendo comida preparada. Deve-se entender comida, aqui, como alimento espiritual. Wilhelm diz a respeito:

            “O Ting, enquanto um utensílio pertencente a uma civilização refinada, sugere o cuidado e a alimentação dos homens capazes, o que resulta em benefício da nação… Aqui a cultura atinge sua culminância na religião. O Ting serve para a oferenda de sacrifícios a Deus. Os mais elevados valores terrenos devem ser oferecidos em sacrifício a Deus… A suprema revelação de Deus encontra-se nos profetas e nos santos. Venerá-los é, na verdade, venerar a Deus. Os desígnios de Deus, manifestados através deles, devem ser aceitos com humildade”.

            Seguindo nossa hipótese, devemos concluir que aqui o I Ching está testemunhando a respeito de si mesmo.

            Quando alguma das linhas de um hexagrama dado tem o valor de seis ou nove, significa que são especialmente enfatizadas, e que, por isso, são importantes na interpretação.6 Em meu hexagrama os “agentes espirituais” enfatizaram com um nove as linhas na segunda e terceira posições. Diz o texto:

Nove na segunda posição significa:

Há alimento no Ting.

Meus companheiros têm inveja,

mas nada podem contra mim.

Boa fortuna.

5        Ele são shên, isto é, “semelhantes a um espírito”. “Os céus produziram coisas semelhantes a um espírito.” (Legge, p. 41.)

6            V. a explicação do método no texto de Wilhelm sobre o uso oracular.

            Assim, o I Ching diz de si mesmo: “Eu contenho alimento (espiritual)”. Como a participação em algo grande sempre desperta inveja, o coro dos invejosos 7 é parte da cena. Os invejosos querem despojar o I Ching daquilo que ele possui de grandioso, isto é, procuram roubar ou destruir o seu significado. Mas essa hostilidade é em vão. Sua riqueza de significado está assegurada, isto é, o I Ching está seguro de suas positivas conquistas, as quais ninguém lhe pode tirar. O texto continua:

Nove na terceira posição significa:

A alça do Ting está alterada.

Ele é impedido em suas atitudes.

A gordura do faisão não é comida.

Quando a chuva cair, o remorso desaparecerá.

A boa fortuna virá ao final.

            A alça ( em alemão Griff) é aparte pela qual o Ting pode ser segurado {gegriffen ). Portanto, significa o conceito 8 {Begriff) que se tem do I Ching ( o Ting). No decorrer do tempo, esse conceito aparentemente mudou, de modo que hoje já não podemos apreender ( begreifen ) o I Ching. Assim, “ele é impedido em suas atitudes”. Já não somos mais amparados pelo sábio conselho e pela profunda visão intuitiva do oráculo; por isso, não mais encontramos nosso caminho através das complexidades do destino e da escuridão de nossa própria natureza. Já não mais se come a gordura do faisão, isto é, a melhor e mais rica parte de um bom prato. Mas quando, finalmente, a terra sequiosa novamente receber a chuva, isto é, quando esse estado de carência for superado, o “remorso”, isto é, a tristeza pela perda da sabedoria tiver cessado, virá a tão esperada oportunidade. Wilhelm comenta: “Isso descreve alguém que, em meio a uma cultura muito desenvolvida, encontra-se numa posição em que não é notado nem reconhecido. Isso é um grande obstáculo à sua atuação”. O I Ching parece estar lamentando que suas excelentes qualidades não sejam reconhecidas e portanto permanecem inexploradas. Conforta-se com a esperança de recuperar, em breve, o reconhecimento.

            A resposta dada, nessas duas linhas de destaque, à pergunta que formulei ao I Ching não requer nenhuma sutileza especial de interpretação, nenhum artifício, nenhum conhecimento incomum. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso pode compreender o significado da resposta; é a resposta de alguém que tem uma boa opinião sobre si próprio, mas cujo valor não é pela maioria reconhecido, nem sequer amplamente conhecido. Quem responde tem uma noção interessante sobre si mesmo: se vê como um recipiente no qual as oferendas ao sacrifício são trazidas aos deuses, a comida do ritual destinada à sua alimentação. Concebe a si próprio como um utensílio de culto destinado a prover o alimento espiritual para os elementos ou forças inconscientes (“agentes espirituais”) que foram projetados como deuses — em outras palavras, para dar a essas forças a atenção que elas necessitam para desempenhar seu papel na vida do indivíduo. Na realidade, esse é o significado original da palavra “religio” — uma cuidadosa observação e consideração (de “relegere”) 9 do numinoso.

7     Por exemplo, os invidi (“o invejoso”) são uma imagem bastante freqüente nos velhos livros latinos de alquimia, principalmente na Turba Philosophorum (séc. XI ou XII).

8     Do   latim  Concipere,   ‘ segurar junto”,   isto é,  num  recipiente: CONCIPERE   deriva de CAPERE, “tomar”, “segurar”.

9     Esta é a etimologia clássica. A derivação de RELIGIO de RELIGARE, “ligar à”, originou-se com os Padres da Igreja.

            O método do I Ching leva realmente em consideração a oculta qualidade individual existente nas coisas e nos homens e também no nosso próprio inconsciente. Interroguei o I Ching como fazemos com alguém a quem estamos prestes a apresentar a nossos amigos: perguntamos se isso seria ou não agradável a ele. O I Ching, como resposta, fala de seu significado religioso, do fato de ser desconhecido e mal interpretado na atualidade, e sua esperança de voltar a ocupar um lugar de honra — essa última parte obviamente como uma direta menção ao meu prefácio ‘ ainda não redigido e sobretudo à tradução para o inglês. Essa parece ser uma reação perfeitamente compreensível tal como se poderia esperar de uma pessoa numa situação similar.

            Mas como surgiu essa reação? Porque eu joguei três pequenas moedas ao ar e as deixei cair, rodar e parar em cara ou coroa, conforme o caso. Esse curioso fato de que uma reação que faz sentido surja de uma técnica que, aparentemente, exclui, de início, todo e qualquer sentido, é a grande conquista do I Ching. O exemplo que acabo de dar não é único, respostas significativas são a regra. Sinólogos ocidentais e importantes eruditos chineses deram-se ao trabalho de informar-me que o I Ching é uma coleção de “fórmulas mágicas” obsoletas. No decorrer destas conversas, meu informante algumas vezes admitiu ter consultado o oráculo através de um adivinho, geralmente um monge Taoísta. Naturalmente isto “só poderia ser bobagem”. Mas o estranho é que a resposta obtida aparentemente coincidia, de um modo notável, com o ponto cego psicológico do consulente.

            Concordo com o pensamento ocidental que seriam possíveis inúmeras respostas à minha pergunta e certamente não posso afirmar que outra resposta não teria sido igualmente significativa. Entretanto, a resposta obtida foi a primeira e única; nada sabemos sobre outras possíveis respostas. Esta me agradou e satisfez. Fazer a mesma pergunta uma segunda vez teria sido falta de tato, por isso não a fiz: “o mestre só fala uma vez”. O opressivo enfoque pedagógico que pretende enquadrar os fenômenos irracionais dentro de um padrão racional preconcebido é anátema para mim. Na realidade, coisas assim como essa resposta devem permanecer tal como eram em sua primeira aparição, pois só então sabemos o que faz a natureza quando deixada em si mesma sem ser perturbada pela intromissão do homem. Não se deve recorrer a cadáveres para estudar a vida. Além disso, uma repetição da experiência é impossível pelo simples motivo de que a situação original não pode ser reconstruída. Portanto, em cada caso há apenas uma primeira e única resposta.

            Voltemos ao próprio hexagrama. Não há nada estranho no fato de que todo o Ting, O CALDEIRÃO, amplie os temas propostos pelas duas linhas ressaltadas.11 A primeira linha do hexagrama diz:

            Um Ting com os pés para o alto, emborcado. É favorável remover o conteúdo estagnado. Uma concubina é aceita em virtude de seu filho. Nenhuma culpa.

            Um caldeirão que se encontra de cabeça para baixo está fora de uso. Logo, o I Ching é como um caldeirão que não está sendo usado. Virá-lo ao contrário serve para eliminar o conteúdo estagnado, como diz a linha. Assim como um homem toma uma concubina quando sua esposa não tem filho, recorre-se ao I Ching quando não se encontra outra saída. Apesar do status quase legal da concubina na China, na realidade ele não é mais que um recurso de certa forma secundário; assim também o processo mágico do oráculo é um recurso que pode ser usado com um objetivo mais elevado. Não há culpa, embora se trate de um recurso excepcional.

10     Na verdade, eu fiz essa experiência antes de escrever o prefácio.

11     Os chineses interpretam somente as linhas móveis obtidas através do uso do oráculo. Eu concluí que na maioria dos casos todas as linhas do hexagrama são relevantes.

              A segunda e terceira linhas já foram discutidas. A quarta linha diz:

            O Ting com as pernas quebradas. A refeição do príncipe é  derramada, e nódoas recaem sobre sua pessoa. Infortúnio.

           Aqui o Ting foi posto em uso, mas evidentemente de uma forma bastante canhestra, isto é, abusou-se do oráculo ou o interpretaram erroneamente. Deste modo, perdeu-se o alimento divino e se expôs à vergonha. Legge traduz da seguinte forma: “o sujeito em questão irá corar de vergonha”. O abuso de um utensílio de culto tal como o Ting (isto é, o  I Ching) é uma profanação grosseira. Evidentemente, o I Ching está insistindo aqui em sua dignidade como um objeto de ritual e protestando contra sua utilização profana.

            A quinta linha diz:

            O Ting tem alças amarelas e argolas de ouro. A perseverança é favorável.

            O I Ching parece ter encontrado uma nova e correta (amarela) compreensão, isto é, um novo conceito (Begriff), através do qual pode ser apreendido. Esse conceito é valioso (de ouro). Há realmente uma nova edição em inglês, que torna o livro mais acessível que antes ao mundo ocidental.

            A sexta linha diz:

            O Ting tem argolas de jade.

            Grande boa fortuna!

            Nada que não seja favorável.

            O jade se distingue pela sua beleza e suave brilho. Se as alças são de jade, todo o recipiente será realçado em sua beleza, honra e valor.

            Aqui o I Ching expressa-se não só como estando muito satisfeito, mas também bastante otimista. Pode-se apenas esperar futuros acontecimentos e, até lá, contentarse com a agradável conclusão de que o I Ching aprova a nova edição.

            Demonstrei nesse exemplo de forma tão objetiva quanto me foi possível como o oráculo atua num caso dado. Evidentemente, o processo varia um pouco segundo a forma como a pergunta é formulada. Se, por exemplo, uma pessoa encontra-se numa situação confusa, ela própria pode aparecer no oráculo como aquela que fala, ou se a pergunta diz respeito a um relacionamento com outra pessoa, essa pessoa pode aparecer como aquela que fala. Entretanto, a identidade de quem fala não depende inteiramente da maneira pela qual a pergunta foi formulada, da mesma forma que nossas relações com nossos semelhantes nem sempre são determinadas por estes últimos.

            Freqüentemente nossas relações dependem quase que exclusivamente de nossas próprias atitudes, mesmo que não estejamos conscientes desse fato. Assim sendo, se um indivíduo não tem consciência do seu papel num relacionamento, poderá haver uma surpresa à sua espera, ao contrário das expectativas, ele próprio pode aparecer como o agente principal, como às vezes é indicado, de forma inequívoca, pelo texto. Pode ocorrer também que tomemos uma situação demasiadamente a sério e a consideremos de extrema importância, enquanto que a resposta que obtemos ao consultar o I Ching chama a atenção para algum outro aspecto inesperado, implícito na pergunta.

            Tais ocorrências podem, ao início, levar-nos a pensar que o oráculo é ardiloso. Diz-se que Confúcio recebeu uma só resposta imprópria, isto é, o hexagrama 22, Graciosidade – um hexagrama totalmente estético. Isso lembra o conselho dado a Sócrates por seu “daimon”: “Você deveria fazer mais música” – e a partir de então Sócrates começou a tocar flauta. Confúcio e Sócrates concorrem ao primeiro lugar no que se refere a uma perspectiva racional e uma atitude pedagógica diante da vida; mas é pouco provável que um deles tenha se preocupado em “embelezar a barba em seu queixo”, como aconselha a segunda linha desse hexagrama. Infelizmente a razão e a pedagogia, com freqüência, carecem de encanto e graça, e assim, afinal, o oráculo talvez não se tenha enganado.

            Voltemos uma vez mais ao nosso hexagrama. Apesar do I Ching não só parecer estar satisfeito com sua nova edição, como até demonstra um enfático otimismo, isso ainda não prediz o efeito que terá no público que se pretende atingir.

            Já que temos em nosso hexagrama duas linhas yang enfatizadas pelo valor numérico nove, estamos em condições de averiguar que tipo de prognóstico o I Ching formula para si próprio. Segundo a concepção da antigüidade, as linhas indicadas por um seis ou um nove possuem uma tensão interna tão grande que faz com que se transformem em seus opostos, isto é, yang em yin e vice-versa. Através dessa transformação, nós obtemos no presente caso o hexagrama 35, Chin, PROGRESSO.

            O tema desse hexagrama é relativo a alguém que encontra toda sorte de vicissitudes do destino em sua ascensão, e o texto descreve como ele deve se comportar. O I Ching está nessa mesma situação: eleva-se como o sol e se dá a conhecer, mas é repudiado e não inspira confiança – ele está “progredindo porém em tristeza”. Entretanto, “obtém-se grande felicidade da parte de seu ancestral”. A psicologia nos pode ajudar a elucidar essa passagem obscura. Em sonhos e nos contos de fadas, a avó, ou ancestral, freqüentemente representa o inconsciente, pois esse último, no homem, contém o componente feminino da psique. Se o I Ching não é aceito pelo consciente, pelo menos o inconsciente, em parte, o aceita e o I Ching está mais ligado ao inconsciente que à atitude racional da consciência. Já que o inconsciente é freqüentemente representado em sonhos por uma figura feminina, poderia ser essa, no caso, a explicação. A figura feminina pode ser interpretada como a tradutora, que deu ao livro cuidados maternais, e o I Ching poderá facilmente considerar isso como uma “grande felicidade”. O I Ching prevê a compreensão geral, mas teme ser mal usado. “Progresso como o de um roedor.” Mas está atento à advertência, “Não se deixe levar por ganho ou perda”. Ele permanece livre de “partidarismos” e não se impõe a ninguém.

            O I Ching, portanto, encara seu futuro no mercado editorial americano tranqüilamente, exprimindo-se aqui como o faria qualquer pessoa sensata a respeito do destino de uma obra tão controvertida. Essa profecia é tão razoável e cheia de bom senso, que seria difícil pensar-se em resposta mais apropriada.

            Tudo isso ocorreu antes de eu ter escrito os parágrafos anteriores. Quando cheguei a esse ponto, quis conhecer a atitude do I Ching diante da nova situação. As circunstâncias tinham sido alteradas pelo que havia escrito, uma vez que eu mesmo tinha entrado em cena e, portanto, esperava ouvir algo referente à minha própria ação. Devo confessar que enquanto escrevia este prefácio não me sentia muito feliz pois, como alguém com senso de responsabilidade em relação à ciência, não tenho o hábito de afirmar algo que não possa provar, ou pelo menos, apresentar de maneira aceitável à razão. É realmente uma tarefa duvidosa tentar apresentar a um público moderno, crítico, um conjunto de arcaicos “encantamentos mágicos”, com a intenção de torná-los mais ou menos aceitáveis. Empreendi essa tarefa porque julgo que há mais, no antigo modo de pensar chinês, do que parece à primeira vista. Porém, é para mim constrangedor ter que apelar à boa vontade e à imaginação do leitor, já que tenho que introduzi-lo na obscuridade de um antiqüíssimo ritual mágico. Infelizmente conheço muito bem os argumentos que podem levantar contra ele. Não temos sequer certeza de que o barco que nos há de levar através de mares desconhecidos não tenha uma falha em algum lugar. Não poderá estar corrompido o velho texto? Será precisa a tradução de Wilhelm? Não estaremos enganados em nossas explicações?

            O I Ching a todo instante insiste no autoconhecimento. O método pelo qual isso deve ser alcançado está aberto a todo tipo de aplicações errôneas e por isso não convém aos frívolos e imaturos nem aos intelectualistas e racionalistas. Só é apropriado àqueles afeitos ao pensar, à reflexão e aos quais apraz meditar sobre o que fazem e o que lhes ocorre — predileção essa que não deve ser confundida com o mórbido cismar do hipocondríaco. Como indiquei acima, não tenho resposta para a infinidade de problemas que surgem quando procuramos harmonizar o oráculo do I Ching com nossos cânones científicos aceitos. Mas é desnecessário dizer que nada “oculto” é passível de ser deduzido. Minha posição nessas questões é pragmática e as grandes disciplinas que me ensinaram a utilidade prática desse ponto de vista são a psicoterapia e a psicologia médica. Provavelmente em nenhum outro campo temos que levar em conta tantas incógnitas, e em nenhuma outra área temos que ter por hábito adotar métodos que funcionam, ainda que, por longos períodos, não saibamos por que eles funcionam. Curas inesperadas podem surgir de métodos presumivelmente confiáveis. Na exploração do inconsciente deparamos com coisas muito estranhas, das quais um racionalista se afastaria com horror, afirmando, depois, que nada viu. A plenitude irracional da vida ensinou-me a nunca descartar nada, mesmo quando vão contra todas as nossas teorias (que mesmo na melhor das hipóteses têm vida tão curta) ou quando não admitem nenhuma explicação imediata. Naturalmente isso é inquietante e não sabemos, com certeza, se a indicação da bússola está correta ou não, porém a segurança, a certeza e a paz não conduzem a descobertas. O mesmo ocorre com esse método divinatório chinês. O método aponta claramente para o autoconhecimento, ainda que em todas as épocas tenha sido usado num sentido supersticioso.

            É claro que estou de todo convencido do valor do autoconhecimento, mas valerá a pena recomendar semelhante introspecção, quando os mais sábios homens em todos os tempos pregaram essa necessidade sem êxito? Este livro representa, e isto é óbvio até mesmo para os mais preconceituosos, uma longa exortação a uma cuidadosa análise de nosso próprio caráter, a atitudes e motivações. Essa posição me atrai e levou-me a escrever o prefácio. Só uma vez antes havia me pronunciado acerca do problema do I Ching — foi durante um discurso em memória de Richard Wilhelm. Afora esta ocasião, mantive um discreto silêncio. Não é tarefa fácil descobrir o caminho para penetrar numa mentalidade distante e misteriosa como a que perpassa o I Ching. Não se pode menosprezar tão facilmente grandes pensadores como Confúcio e Lao-tse, quando se é capaz de avaliar a qualidade dos pensamentos que eles representam; tampouco se pode ignorar o fato de que o I Ching era sua principal fonte de inspiração. Sei que anteriormente não teria ousado expressar-me de forma tão explícita sobre assunto tão incerto. Posso correr esse risco porque estou agora em minha oitava década e as volúveis opiniões dos homens já não mais me impressionam; os pensamentos dos velhos mestres são mais valiosos para mim que os preconceitos filosóficos da mente ocidental.

            Não gosto de incomodar meu leitor com essas considerações pessoais, mas como já indiquei, nossa própria personalidade está, com freqüência, envolvida na resposta do oráculo. Na verdade, ao formular minha pergunta eu como que, de fato, convidava o oráculo a comentar diretamente minha ação. A resposta foi o hexagrama         29 – K’an, O ABISMAL. Ênfase especial foi dada à linha na terceira posição, pelo fato de ela ser designada por um seis. Essa linha diz:

Para adiante e para trás.

Abismo sobre abismo.

Num perigo como esse, detenha-se ao início e espere.

Senão você cairá num buraco no abismo.

Não atue assim.

            Anteriormente eu teria aceito incondicionalmente o conselho “Não atue assim” e teria recusado dar minha opinião sobre o I Ching, pelo simples fato de não ter nenhuma. Mas agora, o conselho pode servir como um exemplo do modo como funciona o I Ching. H um fato, se começamos a pensar nisso, que os problemas do I Ching representam “abismo sobre abismo”, e inevitavelmente deve-se “parar primeiro e esperar” em meio aos perigos de uma especulação demasiado vaga e desprovida de senso critico; de outro modo, realmente nos perderíamos na escuridão. Pode haver uma posição intelectualmente mais incômoda que a de flutuar na névoa de possibilidades não comprovadas, não sabendo se o que estamos vendo é verdade ou ilusão? Essa é a atmosfera quase onírica do I Ching, e nela não encontramos nada em que possamos confiar, exceto o nosso próprio e tão falível julgamento subjetivo. Não posso deixar de reconhecer que essa linha representa muito apropriadamente o sentimento com o qual redigi as páginas precedentes. As reconfortantes palavras iniciais desse hexagrama são igualmente apropriadas — “Se você é sincero, terá o sucesso em seu coração” — porque indicam que o decisivo aqui não é o perigo exterior, mas a condição subjetiva, isto é, se acreditamos sermos “sinceros” ou não.

            O hexagrama compara a ação dinâmica nessa situação ao comportamento da água corrente, que não teme nenhum lugar perigoso e mergulha sobre rochedos e preenche os fossos que encontra em seu curso (K’an também significa água). Essa é a maneira como o “homem superior” age e “exerce o ofício de ensinar”.

            K’an é, sem dúvida, um dos hexagramas menos agradáveis. Descreve uma situação na qual alguém parece encontrar-se em sério perigo de ser apanhado em toda sorte de armadilhas. Do mesmo modo que, ao interpretar um sonho, é preciso seguir o texto do sonho com a máxima exatidão, assim, ao consultar o oráculo, é preciso ter em mente a formulação da pergunta, pois essa impõe um limite definido à interpretação da resposta. A primeira linha do hexagrama mostra a presença do perigo: “No abismo se cai num fosso”. A segunda linha faz o mesmo e acrescenta o conselho: “Deve-se procurar alcançar apenas pequenas coisas”. Eu aparentemente me antecipara a esse conselho, limitando-me, no prefácio, a uma demonstração de como o I Ching funciona na mente chinesa e renunciando ao projeto mais ambicioso, de escrever um comentário psicológico sobre todo o livro.

A quarta linha diz:

Uma jarra de vinho, uma tigela de arroz,

louça de barro, simplesmente entregues pela janela.

Isso por certo não implica em culpa.

            Wilhelm faz o seguinte comentário a respeito:

            “Em condições normais, o funcionário que aspirava a um cargo devia trazer certas oferendas e recomendações antes de ser nomeado. Tudo aqui está simplificado ao máximo. As oferendas são modestas, não há ninguém para recomendá-lo e ele tem de fazer sua própria apresentação. No entanto, não deve se envergonhar por isso, se existir apenas a sincera intenção de prestar uma ajuda mútua no perigo”.

            É como se o livro fosse, num certo sentido, o sujeito dessa linha.

            A quinta linha dá continuidade ao tema da limitação. Observando-se a natureza da água, verifica-se que ela preenche um fosso somente até a borda e prossegue, então, fluindo. Não fica contida ali.

            O abismo não está cheio a ponto de transbordar, está cheio apenas até a borda.

            Mas, se tentados pelo perigo e em virtude apenas da insegurança, insistíssemos tentando forçar uma convicção através de um esforço excepcional, como no caso de elaborados comentários ou coisas semelhantes, atolaríamos nas dificuldades que a linha ao alto descreve com grande precisão como condições que tolhem e aprisionam. Na verdade, a última linha muitas vezes mostra as conseqüências decorrentes de não se levar a sério o significado do hexagrama.

            Em nosso hexagrama temos um seis na terceira posição. Essa linha yin de crescente tensão transforma-se em uma linha yang e assim gera um novo hexagrama, mostrando uma nova possibilidade ou tendência. Temos agora o hexagrama 48 — Ching, O POÇO. O fosso cheio de água já não significa mais perigo e sim algo benéfico, um poço.

            Assim o homem superior incentiva o povo em seu trabalho, exortando as pessoas a se ajudarem mutuamente.

            A imagem de pessoas ajudando-se uma às outras pareceria referir à reconstrução do poço, pois este está quebrado e cheio de lama. Nem mesmo os animais bebem nele. Há peixes vivendo nele e pode-se apanhá-los, mas o poço não é utilizado para beber, isto é, para as necessidades humanas. Essa descrição lembra o Ting —O CALDEIRÃO — de cabeça para baixo e fora de uso, que precisa receber uma nova alça. Além disso, esse poço, como o Ting, está limpo, mas ninguém bebe dele.

               Este é o pesar de meu coração, pois se poderia usufruir dele.

          O perigoso fosso cheio de água ou o abismo referiam-se ao I Ching e o poço também, porém esse último tem um sentido positivo: contém as águas da vida. Deveria ser posto outra vez em uso. Mas não se possui nenhuma noção {Begriff) sobre ele, nem utensílio algum para extrair a água; o cântaro está quebrado e vaza. O Ting precisa de novas alças pelas quais se possa segurá-lo, e o poço também deve receber um revestimento, pois contém “uma fonte límpida e fresca, da qual se pode beber”. Pode-se tirar água dele porque é “digno de confiança”.

         Está claro neste presságio que o sujeito que fala é outra vez o I Ching, representando-se como uma fonte de água da vida. O hexagrama precedente descreve com detalhes o perigo que ameaça a pessoa que acidentalmente cai num fosso dentro do abismo. Ela deve procurar a saída, para poder descobrir que se trata de um velho poço em ruínas, enterrado na lama, mas passível de ser restituído ao uso novamente.

            Submeti duas perguntas ao método do acaso representado pelo oráculo das moedas, a segunda pergunta tendo sido formulada depois de eu ter escrito minha análise da resposta à primeira. A primeira pergunta como que se dirigia ao I Ching: o que tinha ele a dizer sobre minha intenção de escrever um prefácio? A segunda pergunta referia-se à minha própria ação, ou melhor, à situação na qual eu era o sujeito agente que discutira o primeiro hexagrama. À primeira pergunta o I Ching respondeu comparando-se a um caldeirão, um recipiente de ritual que necessitava de renovação e que estava encontrando apenas uma questionável aprovação da parte do público. A resposta à segunda pergunta dizia que eu me encontrava numa dificuldade pois o I Ching representava um profundo e perigoso fosso com água no qual poder-se-ia facilmente atolar. No entanto, o fosso com água revelou ser um velho poço que precisava apenas ser restaurado para tornar-se útil novamente.

            Esses quatro hexagramas são, em seus elementos centrais, coerentes entre si quanto ao tema (recipiente, fosso, poço), e no que se refere ao conteúdo intelectual parecem ser significativos. Se um ser humano desse tais respostas, eu, como psiquiatra, teria de considerá-lo mentalmente sadio, pelo menos, com base no material apresentado. De fato, eu não teria sido capaz de descobrir nada de delirante, de oligofrênico ou esquizofrênico nas quatro respostas. Diante da extrema antigüidade do I Ching e de sua origem chinesa, não posso considerar anormal sua linguagem arcaica, simbólica e floreada.

            Ao contrário, eu teria felicitado essa hipotética pessoa pela amplitude de sua intuição do estado de dúvida que não chegara a expressar. Por outro lado, qualquer pessoa inteligente e versátil pode torcer tudo isso e mostrar como eu projetei os meus conteúdos subjetivos no simbolismo dos hexagramas. Semelhante crítica, ainda que catastrófica do ponto de vista do racionalismo ocidental, não afeta a função do I Ching. Ao contrário, o sábio chinês me diria sorrindo: “Não percebe quão útil é o I Ching para fazer com que você projete num simbolismo abstruso seus pensamentos, até então não percebidos? Você poderia ter escrito seu prefácio sem jamais perceber a avalanche de mal-entendidos que o mesmo poderia desencadear”.

            O ponto de vista chinês não se preocupa com a atitude que se adota frente ao funcionamento do oráculo. Somos unicamente nós que estamos confusos, porque tropeçamos repetidas vezes em nosso preconceito, ou seja, a noção de causalidade. A antiga sabedoria oriental enfatiza o fato de que o indivíduo inteligente compreende seus próprios pensamentos, mas não se preocupa de modo algum com a forma como o faz. Quanto menos se pense sobre a teoria do I Ching melhor se dormirá.

            Parece-me que com base nesse exemplo, um leitor sem preconceitos estaria agora em condições de, pelo menos, tentar formar uma opinião aproximada sobre o modo de operar do I Ching.12 Mais não se pode esperar de uma simples introdução. Se, através dessa demonstração, consegui elucidar a fenomenologia psicológica do I Ching, terei alcançado o meu propósito. Quanto aos milhares de perguntas, dúvidas e críticas que esse livro extraordinário suscita, não posso respondê-las. O I Ching não se apresenta com provas e resultados, não se vangloria de si, nem é de fácil abordagem. Como uma parte da natureza, espera até ser descoberto. Não oferece fatos, nem poder, porém para os amantes do autoconhecimento, da sabedoria — se estes existem – parece ser o livro indicado. Para alguns seu espírito parecerá claro como o dia; para outros, sombrio como o crepúsculo; e para outros ainda, obscuro como a noite. Aquele que não o aprecia, não precisa usá-lo e aquele que é contra, não é obrigado a considerá-lo verdadeiro. Que o deixem seguir para o mundo em benefício daqueles que sejam capazes de discernir seu significado,

ZURIQUE, 1949 – C. G.JUNG

12     Será útil ao leitor ler juntos os quatro hexagramas que se encontram no texto, assim como seus relevantes comentários.

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IV – LIVRO PRIMEIRO

O TEXTO

PRIMEIRA PARTE

1.CH’IEN/O CRIATIVO

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Acima CH’IEN, O CRIATIVO, CÉU.

Abaixo CHIEN, O CRIATIVO, CÉU.

         O primeiro hexagrama se compõe de seis linhas inteiras. Essas linhas correspondem à energia que, em sua forma primordial, é luminosa, forte, espiritual, ativa. O hexagrama é integralmente forte em sua natureza e, por estar livre de toda fraqueza, tem como essência a energia. Sua imagem é o céu. Sua força nunca é limitada por condições determinadas no espaço e por isso é concebida como movimento. O tempo é a base desse movimento. Portanto, o hexagrama inclui também o poder do tempo e o poder de persistir no tempo, ou seja, a duração.

            O poder representado pelo hexagrama deve ser interpretado em dois sentidos: em termos de uma ação no universo e de sua ação no mundo dos homens. Em relação ao universo o hexagrama expressa a atividade criativa e poderosa da Divindade. Aplicado ao mundo dos homens ele representa a ação criativa dos santos e dos sábios, dos que governam e conduzem a humanidade e que, através de sua força, despertam e desenvolvem a natureza mais elevada dos seres humanos.1

            JULGAMENTO

            O CRIATIVO promove sublime sucesso, favorecendo2 através da perseverança.

          De acordo com o sentido original, os atributos (sublime, sucesso, poder de favorecer ou propiciar, perseverança) devem ser considerados em pares. Para aquele que obtém esse oráculo, isso significa que o sucesso lhe chegará das profundezas primordiais do universo e que tudo dependerá dele procurar a sua felicidade e a dos outros através de um único caminho: a perseverança no bem.

            Os significados específicos dos quatro atributos, já desde a antigüidade, foram objeto de discussão. A palavra chinesa interpretada como “sublime” significa literalmente “cabeça”, “origem”, “grande”. Por isso, ao explicá-la, diz Confúcio: “Grande em verdade é o poder gerador do Criativo; a ele todos os seres devem seu começo. Esse poder permeia todo o céu”. Portanto, esse primeiro atributo é também inerente aos outros três.

1 O hexagrama é atribuído ao quarto mês (maio-junho), quando o poder luminoso alcança sua culminância, antes do solstício do verão dar início ao declínio do ano.
2 As expressões “favorecer”, “ser favorável”, que aparecem em tantos hexagramas, têm o sentido estrito de favorecer ou ser favorável à manifestação da natureza essencial ou do ser mesmo de algo ou de alguém. (Nota da tradução brasileira.)

            O começo de todas as coisas jaz, por assim dizer, no além, na condição de idéias que estão ainda por se realizar. Mas o Criativo tem também o poder de dar forma a esses arquétipos das idéias. Isso é indicado na palavra “sucesso”. Esse processo é representado por uma imagem da natureza: as nuvens passam, a chuva atua, e todos os seres individuais fluem para as suas formas próprias.3

            Aplicados ao plano humano, esses atributos indicam ao homem superior o caminho para o grande êxito. “Por ver com muita clareza as causas e os efeitos, ele completa, no tempo certo, as seis etapas e sobe no momento adequado rumo aos céus, como que conduzido por seis dragões.” As seis etapas são as seis diferentes posições (linhas) existentes no hexagrama, representadas adiante pelo símbolo do dragão. Aqui se indica que o caminho para o sucesso consiste em apreender e realizar o sentido do universo (Tao), o qual, como lei perene, perpassa o início e o fim das existências, originando todos os fenômenos condicionados pelo tempo. Assim, cada etapa alcançada torna-se preparação para a seguinte. O tempo já não constitui um obstáculo e sim um meio para atualizar o que permanecia potencial.

            O ato de criação se exprime nos dois atributos “sublime” e “sucesso”. A tarefa da conservação manifesta-se na contínua atualização e diferenciação da forma. Isso será expresso nos termos “favorecendo” ou “propiciando” (criando o que corresponde à essência de um dado ser) e “perseverança” (literalmente “correto e firme”). O curso do Criativo modifica e modela os seres até que cada um alcance sua verdadeira e específica natureza, e os mantém, então, em concordância com a grande harmonia. Assim o Criativo se revela como o que favorece ou propicia através da perseverança. Aplicado à esfera humana, isso mostra como o homem superior traz ao mundo paz e segurança em virtude de sua ação ordenadora. “Ele eleva-se acima da multidão de seres e todas as terras se unem em paz.”

            Outra linha de reflexão prossegue distinguindo as palavras “sublime”, “sucesso”, “favorecer”, “perseverança” e as associa às quatro virtudes cardeais da humanidade. Ao “sublime”, que, como princípio fundamental engloba todos os demais atributos, se relaciona o amor. Ao atributo “sucesso” relacionam-se os costumes, que regulam e organizam as expressões de amor, levando-as ao sucesso. Ao atributo “favorecer” relaciona-se a justiça, que cria as condições nas quais cada ser obtém aquilo que corresponde à sua natureza, aquilo que lhe é devido e que constitui sua felicidade. Ao atributo “perseverança” relaciona-se a sabedoria, que discerne as leis imutáveis presentes em todos os acontecimentos e assim estabelece condições duradouras.

            Essas reflexões já sugeridas no comentário intitulado Wen Yen (v. Livro Terceiro) formaram, mais tarde, o elo que uniu a filosofia das cinco etapas (elementos) da mutação proposta no Livro da História (Shu Ching) com a filosofia do Livro das Mutações, que se baseia na polaridade de princípios positivos e negativos. Com o tempo o relacionamento entre esses dois sistemas de pensamento deu origem a um simbolismo numérico que foi se tornando cada vez mais complexo.4

3 Gênese, cap. 2, 1 e segs., onde o desenvolvimento dos diferentes seres é também relacionado à queda das chuvas.
4 O Criativo causa o início e a geração de todos os seres, podendo ser designado como céu, energia irradiante, pai, governante. Pode-se questionar se os chineses personificaram o Criativo como os gregos, que o conceberam como Zeus. A resposta é que esse problema não é primordial para os chineses. O divino princípio Criativo é suprapessoal e torna-se perceptível apenas através de sua atividade toda poderosa.

            IMAGEM
O movimento do céu é poderoso.

            Assim, o homem superior torna-se forte e incansável.

            Como só existe um céu, a repetição do trigrama Ch’ien, que tem o céu como imagem, indica o movimento do céu. Uma rotação completa do céu constitui um dia e a repetição do trigrama significa que os dias se seguem uns aos outros. Isso gera a idéia de tempo. Já que é o mesmo céu que se move com poder incansável, sugere também a idéia de duração tanto no tempo como além dele, um movimento que jamais se detém ou reduz seu ritmo, assim como os dias seguem-se uns aos outros continuamente. Essa duração no tempo é a imagem da força inerente ao Criativo.

            O sábio extrai dessa imagem o modelo segundo o qual ele deverá desenvolver-se de modo a tornar sua influência duradoura. Ele deve tornar-se integralmente forte, eliminando de maneira consciente tudo que é degradante e inferior. Assim, ele se torna incansável em virtude de uma limitação consciente de seu campo de atividade.

            LINHAS 5
Nove na primeira posição significa: Dragão oculto. Não atue.

            O dragão tem, na China, uma conotação completamente diferente daquela que tem no Ocidente. Simboliza a força propulsora, eletricamente carregada, dinâmica, que se manifesta nas tempestades. No inverno essa força recolhe-se de volta à terra; no começo do verão reativa-se, surgindo no céu como relâmpago e trovão. Como conseqüência as forças criativas na terra redespertam-se.

            Essa força criadora ainda está oculta na terra e, assim, seus efeitos, por enquanto, não são perceptíveis. Aplicado às circunstâncias humanas, isso significa que um grande homem ainda não é reconhecido como tal. Entretanto, ele permanece fiel a si mesmo. Não permite que êxitos e fracassos exteriores o influenciem, mas, confiante em sua força, espera o momento propício.

            Portanto, aquele que, consultando o oráculo, obtém essa linha deve aguardar com tranqüilidade e paciência. O momento oportuno virá. Não há necessidade de temer que uma poderosa vontade não prevaleça. Mas é preciso não desperdiçar prematuramente suas energias tentando obter algo, pela força, antes de seu tempo.

            Nove na segunda posição significa:
Dragão aparecendo no campo.
É favorável procurar o grande homem.

5 As linhas são contadas de baixo para cima, sendo a linha inferior a primeira. Se aquele que consulta o oráculo retirar um sete, isso é importante em relação á estrutura do hexagrama como um todo, pois essa é uma linha inteira; mas uma vez que não é móvel, não tem significado como linha individual. Por outro lado se o consulente obtém um nove, a linha é móvel e tem um significado especial, devendo ser considerada separadamente. O mesmo princípio se aplica a todas as outras linhas inteiras e também às linhas abertas e móveis, isto é, aos seis e noves. As duas linhas de baixo de cada hexagrama representam a terra; as duas do meio, o mundo dos homens; as duas de cima, os céus. Maiores detalhes sobre o significado dos noves e dos seis são encontrados no apêndice I, ao final do Livro.

            Começam a manifestar-se aqui os efeitos do poder luminoso. Aplicado ao âmbito humano, significa que o grande homem aparece em seu campo de atividade. Não ocupa uma posição de comando, encontra-se ainda entre subalternos. Porém, o que o distingue dos outros é sua seriedade de propósitos, sua absoluta confiabilidade e a influência que exerce, sem esforço consciente, sobre seu ambiente. Um tal homem está destinado a ter grande influência e a conduzir o mundo à ordem. Por isso é favorável ir ao seu encontro.

            Nove na terceira posição significa:
O homem superior permanece criativamente ativo o dia todo.

            Uma esfera de influência se abre para o grande homem. Sua fama começa a difundir-se. Multidões vêm a ele. Sua força interna está à altura do aumento de atividade externa. Há muito que fazer e até mesmo à noite, enquanto outros repousam, planos e preocupações o pressionam. Mas um perigo ameaça nessa transição do plano inferior para as alturas. Grandes homens arruinaram-se quando foram cercados pela multidão e por ela arrastados a seus próprios rumos. Nesse caso a ambição teria corrompido a integridade interior. Mas tentações não podem macular a verdadeira grandeza. Aquele que permanecer em empatia com o tempo que surge e suas exigências, será assim prudente o suficiente para evitar desvios e culpas.

            Nove na quarta posição significa:
Vôo hesitante sobre as profundezas.
Nenhuma culpa.

            Alcançou-se aqui o ponto de transição, onde a liberdade de escolha pode atuar. Uma dupla possibilidade é apresentada ao grande homem: elevar-se tornando-se influente, ou recolher-se à solidão e desenvolver-se em silêncio. Ele pode seguir o caminho do herói ou o do santo sábio que busca reclusão. Não há regra que determine o caminho certo. Todo aquele que se encontra em tal situação deve decidir livremente, de acordo com os princípios mais profundos de sua natureza interna. Se ele atua com toda veracidade e solidez, encontra o caminho que lhe corresponde e este será para ele o caminho certo e sem culpa.

            Nove na quinta posição significa:
Dragão voando nos céus.
É favorável ver o grande homem.

            O grande homem chegou, aqui, à esfera dos seres celestiais. Sua influência se estende, tornando-se visível em todo o mundo. Todo aquele que o contempla pode considerar-se abençoado.

            Confúcio faz o seguinte comentário a respeito desta linha: “As coisas que se harmonizam em tom, vibram em conjunto. As coisas que, entre si, têm afinidade em suas essências mais íntimas atraem-se mutuamente. A água flui para o que é úmido, o fogo volta-se para o que é seco. As nuvens (o sopro dos céus) seguem o dragão, o vento (o sopro da terra) segue o tigre. Ergue-se assim o sábio, e todos os seres seguem-no com o olhar. O que nasce do céu tende para o que está acima; o que nasce da terra tende para o que está abaixo. Cada um segue o que lhe corresponde”.

            Nove na sexta posição significa:
Dragão arrogante terá motivo de arrependimento.

            Quando alguém pretende subir tão alto que perde o contato com o resto da humanidade isola-se e isso conduz, necessariamente, ao fracasso. Aqui há uma advertência contra aspirações titânicas que excedem as forças disponíveis. A conseqüência seria uma queda nas profundezas.

            Quando todas as linhas são noves, isso significa:
Aparece uma revoada de dragões sem cabeça.
Boa fortuna.

            Quando todas as linhas são noves, todo o hexagrama entra em movimento e se transforma no hexagrama Kun, O RECEPTIVO, cuja característica é a devoção. A força do Criativo se une à suavidade do Receptivo. A força está indicada pela revoada dos dragões, e a suavidade pelo fato de suas cabeças estarem ocultas. Isso significa que a suavidade na ação, unida à força de decisão, traz boa fortuna.

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2. K’UN/O RECEPTIVO

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Acima K’UN, O RECEPTIVO, TERRA.

Abaixo K’UN, O RECEPTIVO, TERRA.

            Este hexagrama se compõe de seis linhas abertas. A linha aberta representa o poder primordial obscuro, maleável e receptivo de Yin. O atributo do hexagrama é a devoção e sua imagem, a terra. É o perfeito complemento do Criativo, a contraparte, não seu oposto, pois o Receptivo não combate o Criativo, mas o completa. Representa a natureza em contraste com o espírito, a terra em contraste com o céu, o espaço em contraste com o tempo e o feminino-maternal em contraste com o masculinopaternal. Aplicado ao âmbito humano o princípio dessa relação complementar encontra-se tanto nas relações entre homem e mulher quanto entre príncipe e ministro, e entre pai e filho. Mesmo no interior do indivíduo esta realidade aparece na coexistência do mundo espiritual com o mundo dos sentidos.

            Não se deve, entretanto, ver aqui um real dualismo, pois existe entre os dois princípios um relacionamento claramente definido em termos hierárquicos. O Receptivo em si é, evidentemente, tão importante quanto o Criativo, mas o atributo da devoção define a posição desse poder primordial em relação ao Criativo. O Receptivo deve ser ativado e dirigido pelo Criativo, quando, então, produzirá resultados benéficos. Só quando abandona essa posição e tenta colocar-se ao lado do Criativo como um ser igual torna-se nefasto. A conseqüência seria, então, oposição e luta contra o Criativo, trazendo infortúnio para ambos.

            JULGAMENTO

            O RECEPTIVO traz sublime sucesso, propiciando através da perseverança de uma égua. Se o homem superior empreender algo e tentar dirigir, ele se desviará; porém se ele seguir, encontrará orientação.

            Os quatro aspectos fundamentais do Criativo — “sublime sucesso, favorecido através da perseverança” — são também atribuídos ao Receptivo. Aqui, porém, a perseverança é definida com maior precisão como sendo a de uma égua. O Receptivo designa a realidade espacial em contraste com a potencialidade espiritual do Criativo. O potencial torna-se real e o espiritual torna-se espacial através de uma definição especificamente qualificativa que limita e individualiza. Por isso a qualificação “de uma égua” é adicionada à idéia de “perseverança”. O cavalo pertence à terra como o dragão ao céu. Percorrendo incansavelmente a vastidão das planícies, o cavalo simboliza a imensa extensão da terra. A égua foi escolhida como símbolo porque combina a força e a agilidade do cavalo com a docilidade e a devoção da vaca.

            E apenas porque a natureza, em suas incontáveis formas, corresponde aos incontáveis impulsos do Criativo, que ela pode realizá-los. A riqueza da natureza jaz em seu poder de alimentar todos os seres, e sua grandeza em seu poder de lhes conceder beleza e esplendor. Assim ela faz prosperar tudo que vive. Enquanto o Criativo gera os seres, estes são partejados pelo Receptivo. Aplicado ao âmbito humano o hexagrama indica que se deve agir em conformidade com a situação. Trata-se aqui de alguém que não se encontra numa posição independente, e sim atuando como assistente. Isso significa que ele deve realizar algo. Não é sua tarefa tentar dirigir — isso apenas o desviaria de seu caminho — e sim se deixar conduzir. Se ele souber enfrentar o destino com uma atitude de aceitação, certamente encontrará a orientação correta. Aqui o homem superior se deixa conduzir. Não avança às cegas, mas aprende a ver nas circunstâncias o que se espera dele, seguindo então esta exigência do destino.

            Já que se deve realizar algo, são necessários auxiliares e amigos na hora do trabalho e do esforço, quando as idéias a serem cumpridas estiverem firmemente estabelecidas. O tempo do trabalho e do esforço é indicado pelo oeste e pelo sul, pois o sul e o oeste simbolizam o lugar onde o Receptivo trabalha para o Criativo – como a natureza no verão e no outono. Se todas as forças não forem reunidas, o trabalho a ser realizado não será efetuado. Por isso encontrar amigos significa, aqui, realizar uma tarefa. Mas além do trabalho e do esforço há também um tempo de planejar, e para isso se requer solidão. O leste simboliza o lugar em que um homem recebe ordens de seu mestre e o norte, o lugar em que presta contas do que realizou. Neste momento ele precisa estar só e ser objetivo. Nesta hora sagrada ele deve evitar os companheiros, para que a pureza do momento não seja maculada pelo ódio e pela parcialidade.

            IMAGEM

            A condição da terra é a devoção receptiva.

            Assim o homem superior com sua grandeza de caráter sustenta o mundo externo.

        Assim como só existe um céu, existe apenas uma terra. No hexagrama do céu a repetição do trigrama significa duração no tempo; no hexagrama da terra essa repetição de seu trigrama significa a extensão no espaço e a firmeza com que a terra sustenta e preserva tudo o que vive e se move sobre ela. Em sua devoção, a terra sustenta, sem exceção, todas as coisas, boas e más. Assim, o homem superior torna seu caráter amplo, puro, resistente, de modo a poder dar apoio aos homens e às coisas.

            LINHAS

            Seis na primeira posição significa: Quando se caminha pela geada, o gelo sólido não estará longe.

          Assim como o poder luminoso representa a vida, o poder obscuro e sombrio representa a morte. No outono, quando cai a primeira geada, o poder da escuridão e do frio começa a manifestar-se. Depois dos primeiros indícios, os sinais da morte irão se multiplicando gradualmente, segundo leis imutáveis, até que chegue o rígido inverno com seu gelo.

            O mesmo acontece na vida. A decadência surge, ao início sugerida através de sinais apenas perceptíveis, para em seguida se avolumar até a chegada da dissolução final. Porém, na vida podem-se tomar precauções, se houver atenção aos primeiros sinais de decadência, evitando-a a tempo.

            O símbolo do céu é o círculo; o da terra, o quadrado. Logo o quadrangular é a qualidade primordial da terra. Por outro lado, o movimento retilíneo ou de primeira grandeza é também a primeira qualidade do Criativo. Todas as figuras planas têm sua origem na linha reta e formam, por sua vez, as figuras sólidas. Quando em matemática se estabelecem distinções entre linhas, planos e sólidos, verifica-se que das linhas retas resultam figuras sólidas. O Receptivo orienta-se segundo as propriedades do Criativo e as incorpora. Assim o quadrado provém da linha reta e o cubo, do quadrado. Isso significa a simples devoção às leis do Criativo, sem nada acrescentar ou retirar. Por isso o Receptivo não requer nenhum propósito e nenhum esforço especial, e tudo se desenrola da maneira adequada.

            A natureza cria os seres sem erro, mostrando-se assim retilínea. Ela é tranqüila e silenciosa, essa é a sua condição quadrangular. A todos dá apoio com equanimidade, essa é a sua grandeza. Por isso ela atinge o que é justo para todos, sem artifícios, sem propósitos particulares. O homem atinge a culminância da sabedoria quando todas as suas ações tornam-se tão auto-evidentes em si mesmas quanto as da natureza.

        Se acaso você está a serviço de um rei, não procure trabalhos, porém leve à conclusão.

          Se um homem está livre de vaidade, será capaz de ocultar suas habilidades de modo a não atrair a atenção cedo demais. Assim poderá atingir a maturidade em paz. Se as circunstâncias o exigirem, ele poderá entrar na vida pública, porém de forma discreta. O sábio deixa de bom grado a fama a outros. Ele procura liberar forças eficazes, sem se preocupar em ter atribuído a si os méritos do trabalho já realizado, isto é, ele completa suas obras de modo a serem frutíferas para o futuro.

            O princípio da escuridão abre-se quando em movimento e fecha-se quando em repouso. A mais rigorosa reserva é aqui indicada. O momento é perigoso; qualquer sinal de proeminência levará à animosidade por parte de adversários mais fortes caso o homem os desafie, ou a um falso reconhecimento baseado numa incompreensão, caso seja complacente. Ele deve, portanto, manter a reserva, seja na solidão ou no turbilhão do mundo, pois, também aí, poderá ocultar-se de modo a passar desapercebido.

            O amarelo é a cor da terra e do centro, o símbolo do que é autêntico e digno de confiança. A roupa de baixo é discretamente adornada, símbolo de aristocrático recato. Quando alguém é chamado a atuar numa posição de destaque, porém, não independente, o verdadeiro sucesso dependerá de rigorosa discrição. A autenticidade e o refinamento não devem destacar-se diretamente, porém devem expressar-se apenas de modo indireto como um efeito que surge do interior.

            No ponto mais alto, o obscuro deve ceder ao luminoso. Se tentar manter uma posição que não lhe corresponde e, ao invés de servir, pretender dirigir, atrairá sobre si a ira do forte. O resultado é uma luta na qual o obscuro será derrubado, porém com prejuízos para ambas as partes. O dragão, símbolo do céu, vem combater o falso dragão que simboliza a atitude pretensiosa do princípio terrestre. O azul-noite é a cor do céu, o amarelo é a cor da terra. Quando, portanto, o sangue negro e amarelo é derramado, isso indica que nessa luta antinatural os dois poderes primordiais sofrem dano.6

          Quando todas as linhas são seis, isso significa: a perseverança constante é favorável. Quando se tem apenas seis, o hexagrama do Receptivo transforma-se no hexagrama do Criativo. Permanecendo firme no que é correto, conquista-se o poder da perseverança. Não há nenhum progresso, mas também nenhum retrocesso.

6     Enquanto a linha ao alto do hexagrama “O CRIATIVO” indica o orgulho dos titãs, sendo, assim, equivalente à lenda grega de Ícaro, a linha de alto do hexagrama “O RECEPTIVO” assemelha-se ao mito da rebelião de Lúcifer contra a divindade suprema, ou o combate entre os poderes da escuridão e os deuses do Walhalla, que termina no Crepúsculo dos Deuses.

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3. CHUN / DIFICULDADE INICIAL

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Acima K’AN, O ABISMAL, ÁGUA.

Abaixo CHÊN, O INCITAR, TROVÃO.

            O nome do hexagrama, Chun, representa propriamente um talo de grama que, no seu esforço de crescimento, encontra um obstáculo. Disso resulta o significado de Dificuldade Inicial. O hexagrama indica a maneira como o céu e a terra dão origem aos seres individuais. Esse primeiro encontro entre o céu e a terra é cercado por dificuldades. O trigrama inferior Chên é o Incitar, seu movimento tende para o alto, sua imagem é o trovão. O trigrama superior K’an é o Abismal, o perigoso; seu movimento tende para baixo, sua imagem é a chuva. A situação é, portanto, de um denso caos. A atmosfera está carregada de trovão e chuva. Porém, o caos se dissolve. Enquanto o Abismal desce, o movimento que tende para o alto ultrapassa o perigo. A tempestade traz alívio de tensão e todos os seres respiram aliviados.

            JULGAMENTO

            DIFICULDADE INICIAL traz sublime sucesso favorecendo através da perseverança. Nada deve ser empreendido. É favorável designar ajudantes. Tempos de crescimento implicam em dificuldades. Assemelham-se a um primeiro nascimento. Mas essas dificuldades surgem da profusão de seres que lutam por adquirir forma. Tudo está em movimento; assim, com perseverança, há perspectivas de grande sucesso, apesar do perigo. Quando tais épocas aparecem no destino do homem, tudo encontra-se ainda informe e obscuro. Portanto, é preciso esperar, pois qualquer movimento prematuro poderia ocasionar infortúnio. É também de grande importância não permanecer sozinho. Devem-se convocar ajudantes, para com eles superar o caos. Isso não significa que se devam contemplar passivamente os acontecimentos. É necessário cooperar e participar, encorajando e  orientando.

            IMAGEM

            Nuvens e trovão: a imagem da DIFICULDADE INICIAL. Assim, o homem  superior atua desembaraçando e pondo em ordem.

            As nuvens e o trovão são representados por linhas ornamentais definidas, isto é, a ordem já está implícita dentro do caos da Dificuldade Inicial. Assim também o homem superior deve, nesses momentos iniciais, estruturar e ordenar o vasto caos reinante, da mesma forma com que se desembaraçam os fios de seda emaranhados, juntando-os em meadas. Para que cada um encontre o seu lugar entre a infinidade dos seres é necessário tanto separar quanto unir.

            LINHAS

            Nove na primeira posição significa: Hesitação e obstáculo. É favorável permanecer perseverante. É favorável designar ajudantes.

            Se alguém encontra obstáculos ao início de um empreendimento, não deve forçar o avanço e sim deter-se para refletir. Entretanto não deve se deixar desviar, mantendo a constância e a perseverança de modo a não perder de vista sua meta. É importante procurar o auxílio certo. Só o encontrará evitando a arrogância e associando-se a seus semelhantes com espírito de humildade. Desse modo atrairá aqueles que o ajudarão a enfrentar as dificuldades.

            Alguém está diante de dificuldades e obstáculos. Repentinamente há uma mudança, como se alguém chegasse com cavalo e carroça, e os desatrelasse. Isso ocorre tão inesperadamente que desconfia-se ser o recém-chegado um malfeitor. Pouco a pouco se verifica que ele não tem más intenções, mas procura estabelecer amizade e oferecer ajuda. Mas o oferecimento não deve ser aceito, pois não procede da fonte certa. Devese esperar até que o prazo se cumpra; dez anos formam um ciclo completo de tempo. As condições normais retornam para si próprias, e então podemos nos unir ao amigo que nos está destinado.

            Usando a imagem de uma noiva que permanece fiel a seu amado em meio a graves conflitos, o hexagrama dá um conselho para essa condição excepcional. Quando, em épocas de dificuldades, um obstáculo é encontrado e um alívio inesperado é oferecido por uma fonte estranha, deve-se proceder com cautela, evitando assumir compromissos decorrentes de tal ajuda. Em caso contrário, a liberdade de decisão seria tolhida. Caso se aguarde o momento adequado, tudo se tranqüilizará e o que se almejava será alcançado.7

Quem caça o veado sem o guarda-florestal

só poderá se perder na floresta.

O homem superior compreende os sinais do tempo

7     Outra tradução é aqui possível, resultando em interpretação diferente:

“As dificuldades se acumulam.

O cavalo e a carroça mudam de direção.

Se o malfeitor não estivesse lá,

o pretendente viria.

A donzela é fiel, ela não se compromete.

Dez anos e então ela se compromete.

e prefere desistir.

Continuar traz humilhação.”

            Se um homem quer caçar sem guia numa floresta desconhecida, se perderá. Não se deve tentar escapar das dificuldades de maneira irrefletida e sem orientação. O destino não se deixa enganar. Um esforço prematuro, sem a necessária orientação, conduz ao fracasso e ao infortúnio. Assim, o homem superior, identificando as sementes do que está para acontecer, prefere renunciar a um desejo do que provocar o fracasso e o infortúnio, tentando consegui-lo pela força.

Seis na quarta posição significa:

“O cavalo e a carroça se separam.

Busque união.

Ir adiante traz boa fortuna.

Tudo atua de modo favorável.”

            Alguém se encontra numa situação na qual o dever impõe agir, mas não dispõe de força suficiente. Surge uma oportunidade para se fazer contatos. Deve-se aproveitá-la. Um homem não deve permitir que uma falsa reserva ou um falso orgulho o detenha. É sinal de clareza interior dar o primeiro passo, mesmo quando isso envolve um certo grau de abnegação. Não é vergonhoso aceitar ajuda numa situação difícil. Caso se encontre o ajudante certo, tudo irá bem.

            Alguém se encontra numa situação na qual é impossível exprimir suas boas intenções de modo a que tomem forma, e sejam compreendidas. Outras pessoas interpõem-se e deformam tudo o que se fez. E preciso então ser cauteloso e proceder por etapas. Não se deve forçar a realização de algo grandioso, pois o sucesso só é possível quando já se dispõe da confiança geral. Somente o trabalho realizado em silêncio, com lealdade e consciência, poderá, pouco a pouco, levar a situação a se esclarecer e os obstáculos a desaparecerem.

            As dificuldades iniciais são pesadas demais para algumas pessoas. Elas ficam presas e já não encontram mais a saída. Cruzam os braços e renunciam à luta. Uma tal resignação é o que há de mais triste. Por isso Confúcio faz a seguinte observação a respeito dessa linha: “Derramam-se lágrimas de sangue: não se deve persistir numa tal atitude”.8

8    Quando, no decorrer da luta da vida, o homem chega a um ponto em que não avança, um suspiro escapa de seu peito — como naquele famoso trecho da Sinfonia em Dó menor de Beethoven, — essa situação não deve perdurar. Ele deve atrelar os cavalos de seu pensamento positivo, uma vez mais, e conduzir a luta até o fim.

“Aquele que nunca descansa,

aquele cujo pensamento almeja de

corpo e alma ao impossível,

esse é o vencedor.”

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4. MENG / A INSENSATEZ JUVENIL

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Acima KÊN, A QUIETUDE, MONTANHA.

Abaixo K’AN, O ABISMAL, ÁGUA

            Este hexagrama nos apresenta a juventude e a insensatez de duas maneiras. O trigrama superior, Kên, tem como imagem a montanha e o inferior, K’an, tem como imagem a água. A fonte que brota no sopé da montanha é a imagem da juventude inexperiente. O atributo do trigrama superior é a Quietude, o atributo do inferior é o Abismal, perigo. Manter-se imóvel e perplexo diante de um perigoso abismo é também um símbolo de Insensatez Juvenil. Mas os dois trigramas indicam ainda o caminho através do qual a Insensatez Juvenil pode ser superada. A água tende necessariamente a seguir fluindo. Quando a fonte brota, não sabe, a princípio, para onde se dirigirá. Entretanto, através de seu constante fluir preenche as depressões que impedem seu progresso e assim atinge o sucesso.

            JULGAMENTO

            A INSENSATEZ JUVENIL tem sucesso.

            Não sou eu quem procura o jovem insensato,

            é o jovem insensato quem me procura.

            À primeira consulta eu respondo.

            Se ele pergunta duas ou três vezes, torna-se importuno.

            Ao que se torna importuno não dou nenhuma informação.

            A perseverança é favorável.

            Na juventude a insensatez não chega a ser um mal. Apesar dela, podemos chegar ao sucesso. Para isso é necessário encontrar um instrutor experiente e ter a atitude correta em relação a ele. O jovem deve em primeiro lugar reconhecer sua inexperiência e procurar o instrutor. Somente tal modéstia e interesse podem assegurarlhe encontrar a necessária receptividade expressa na respeitosa aquiescência por parte do instrutor.

            Este deve esperar tranqüilamente até ser procurado. Não deve oferecer-se  espontaneamente. Só assim poderá a instrução se realizar no tempo certo e do modo adequado.

            A resposta de um instrutor à pergunta do aprendiz deve ser clara e precisa como a que deseja obter aquele que consulta o oráculo. Ela deve então ser aceita como chave para solução de dúvidas e como base para decisão. A insistência em perguntas tolas e desconfiadas serve apenas para incomodar o instrutor que deve ignorá-las em silêncio, assim como o oráculo que responde apenas uma vez, recusando as questões movidas pela dúvida

            Finalmente, valendo-se ainda da perseverança que não enfraquece até dominar, ponto por ponto, a aprendizagem, se chegará a um grande sucesso. O hexagrama aconselha, então, tanto ao instrutor quanto ao aprendiz.

            IMAGEM

            Uma fonte surge na base da montanha: a imagem da juventude.

            Assim o homem superior fortalece seu caráter graças à meticulosidade em tudo que faz.

            A fonte consegue fluir e superar a estagnação, preenchendo todas as depressões que encontra em seu caminho. Do mesmo modo, a formação do caráter consiste na meticulosidade que nada omite, porém, como a água, contínua e gradualmente preenche todos os espaços vazios e assim segue adiante.

            LINHAS

            Seis na primeira posição significa: Para fazer com que o insensato se desenvolva é favorável aplicar a disciplina. Deve-se remover os grilhões. Continuar assim traz humilhação.

            A lei é o começo da educação. A juventude, em sua inexperiência, tende, ao início, a encarar tudo de maneira descuidada, como uma brincadeira. Deve-se então mostrar-lhe a seriedade da vida. É benéfico procurar o autodomínio através de uma rigorosa disciplina. Aquele que brinca com a vida nada realizará. Mas a disciplina não deve degenerar em um treinamento militar, pois com o tempo isso teria um efeito humilhante sobre o educando, bloqueando até mesmo suas forças.

            Essa linha representa um homem privado de poder externo, porém dotado da necessária força espiritual para suportar o peso de suas responsabilidades. Ele possui a superioridade interior e a força que lhe permitem tolerar gentilmente as deficiências decorrentes da insensatez humana. Frente às mulheres enquanto sexo mais fraco, cabe uma atitude semelhante.9

9     A formulação de Wilhelm, nessa passagem de seu comentário, é ambígua e perigosa. Poderia induzir à conclusão de que se estivesse associando a mulher aos insensatos, concluindo-se assim a indicação de uma atitude condescendente para com o sexo feminino também. Isso entraria em choque frontal com a doutrina da complementaridade dos opostos exposta no I Ching. Pode-se, por isso, concluir que é necessário procurar um outro nexo entre a primeira e a segunda frases do texto da linha. Esse vínculo estaria numa analogia entre a característica de suavidade da benevolência e a suave cortesia de uma atitude de cavalheirismo. Esse, então, é o denominador comum das duas frases; o atributo de suavidade existente em ambas as atitudes e não os seus respectivos, independentes e diversos motivos. (Nota da tradução brasileira.)

            Deve-se compreendê-las e mostrar-lhes reconhecimento com um espírito cavalheiresco. Somente unindo força interna e discrição externa se poderá assumir a responsabilidade do comando de um organismo social de maiores proporções e obter um verdadeiro sucesso.

            Uma pessoa fraca e inexperiente, lutando para ascender, perde facilmente sua própria individualidade se, diante de uma personalidade forte numa alta posição, passa a imitá-la como um escravo. Essa atitude assemelha-se à de uma jovem que logo se entrega ao encontrar um homem forte. Não se deve ser complacente para com tal aproximação servil, pois isso seria nocivo tanto para o educando quanto para o educador. A dignidade de uma jovem exige que ela espere até ser cortejada. É, pois, indigno tanto oferecer quanto aceitar tal oferecimento.

            Não há esperanças para a insensatez juvenil quando se deixa enredar em fantasias ocas. Quanto mais teimosamente se aferrar a essas fantasias irreais, mais atrairá humilhações sobre si.

            Diante da limitada insensatez, freqüentemente o educador não terá outra saída senão abandoná-la a si própria durante algum tempo, sem protegê-la da humilhação decorrente de seu comportamento. Muitas vezes este é o único caminho para a salvação.

            Uma pessoa inexperiente que busca instrução com simplicidade, como uma criança, tem tudo a seu favor. Pois aquele que sem arrogância se subordina ao instrutor será certamente auxiliado.

            Às vezes, um insensato incorrigível deve ser punido. Aquele que não dá ouvidos às advertências deve sentir as conseqüências em sua própria carne. A punição aqui difere de quando sacudimos alguém pela primeira vez, repreendendo-o por seu erro. Mas a aplicação da punição não deve ser conduzida com raiva, e sim limitar-se a uma defesa objetiva contra abusos injustificados. O castigo nunca é um fim em si mesmo. Deve servir apenas ao restabelecimento da ordem. Isso se aplica tanto à educação, quanto às medidas de um governo frente a uma população culpada de abusos. A intervenção do governo deve ser sempre preventiva e ter como único objetivo a segurança e a tranquilidade públicas.

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5. HSU/A ESPERA (NUTRIÇÃO)

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Acima K’AN, O ABISMAL, ÁGUA.

Abaixo CH’IEN, O CRIATIVO, CÉU.

            Todos os seres necessitam do alimento que vem do alto. Porém a doação do alimento tem seu tempo próprio, e por ele se deve esperar. O hexagrama mostra as nuvens no céu trazendo a chuva para alegria de tudo o que cresce e provendo à humanidade com comida e bebida. A chuva virá em seu tempo próprio. Não se pode forçá-la, deve-se esperá-la. A idéia de espera é também sugerida pelos atributos dos dois trigramas: a força no interior10 e diante dela, perigo. A força diante do perigo não se precipita, mas, ao contrário, é capaz de esperar. A fraqueza diante do perigo torna-se inquieta, e não tem a paciência para a espera.

            JULGAMENTO

            A ESPERA.

            Se você é sincero, tem a luz e o sucesso.

            A perseverança traz boa fortuna.

            É favorável atravessar a grande água.

            A espera não é uma esperança vazia. Possui a certeza interior de alcançar o seu objetivo. Só essa certeza confere a luz única que conduz ao sucesso. Isso leva à perseverança que traz boa fortuna e prove a força para atravessar a grande água.

            Alguém se encontra diante de um perigo que deve ser superado. Fraqueza e impaciência nada conseguirão. Só o forte pode enfrentar seu destino, pois, graças à sua segurança interior, ele é capaz de resistir. Essa força manifesta-se através de uma incorruptível veracidade para consigo mesmo. Só quando se é capaz de ver as coisas diretamente, tais como são na realidade, sem se deixar enganar nem iludir, é que surge uma luz que permite reconhecer o caminho para o sucesso. A este reconhecimento deve seguir-se uma atuação resoluta e perseverante, pois só quem enfrenta seu destino de modo decidido o realizará. Assim, se poderá atravessar a grande água, isto é, tomar uma decisão e vencer o perigo.

10     Considera-se o trigrama superior como estando adiante do trigrama inferior. Superior e inferior, quando relativos aos trigramas, não têm conotações qualitativas, como ocorre com as noções de homem superior e homem inferior. Quanto aos trigramas, os termos indicam apenas a posição em que se encontram num dado hexagrama. Trigrama inferior, interno ou anterior é aquele formado pelas linhas na primeira, segunda e terceira posições (a contar de baixo), enquanto o trigrama superior, externo ou posterior é aquele formado pelas linhas na quarta, quinta e sexta posições. (Nota da tradução brasileira.)

             IMAGEM

            Nuvens se elevam no céu: a imagem da ESPERA.

            Assim o homem superior come e bebe, permanece alegre e de bom humor.

            Quando as nuvens se elevam nos céus, é sinal de chuva. Não há nada a fazer senão esperar que a chuva caia. O mesmo ocorre na vida quando o destino articula seus movimentos. Não se deve ceder a preocupações nem procurar moldar o destino com intervenções prematuras. Ao contrário, deve-se, com tranqüilidade, fortificar o corpo, comendo e bebendo, e o espírito, através da alegria e do bom humor. O destino virá no seu tempo devido e então se estará preparado.

            LINHAS

            Nove na primeira posição significa: A espera na   planície. É favorável esperar no duradouro. Nenhuma culpa.

            O perigo ainda está longe. Espera-se na vasta planície. As circunstâncias ainda são simples, mas pressente-se já o que se aproxima. Em tal caso deve-se manter a vida em seu ritmo regular enquanto for possível. Só assim se evitará um desperdício prematuro de forças e se escapará de erros e culpas que mais tarde enfraqueceriam.

            Nove na segunda posição significa: A espera na areia. Há alguma maledicência. O final traz boa fortuna.

            O perigo aproxima-se pouco a pouco. A areia está próxima à margem do rio e a água significa perigo. Aumentam os desentendimentos. Nessas épocas cresce facilmente uma intranqüilidade geral. Os homens culpam-se uns aos outros. Quem permanecer sereno11 conseguirá que tudo chegue a bom termo. A difamação terminará por emudecer, caso não seja alimentada por réplicas ofendidas.

            Nove na terceira posição significa: A espera no lodo gera a chegada do inimigo.

            O lodo que está sendo tragado pelas águas não é um bom lugar para a espera. Ao invés de concentrar as forças para atravessar o rio numa só investida, alguém faz uma tentativa prematura, que o conduz apenas até o lodo. Uma situação tão desfavorável atrai os inimigos do exterior, que naturalmente aproveitam-se disso. Só com seriedade e cautela se conseguirá evitar danos.

            Seis na quarta posição significa: A espera no sangue. Saia do buraco.

            A situação é extremamente perigosa, muito grave. Tornou-se agora uma questão de vida ou morte. É iminente o derramamento de sangue. Não se pode avançar nem retroceder. Alguém encontra-se isolado como se estivesse num buraco. Deve-se, então, simplesmente perseverar e deixar que o destino se realize. Essa tranqüilidade, que não agrava a situação com iniciativas próprias, é o único caminho que’conduz à saída do perigoso fosso.

11     Literalmente “estado de abandono”. Como esclarece a tradução francesa: “Wilhelm utiliza aqui o termo ‘gelassen’, ‘abandonado’, para caracterizar a atitude perfeita do homem que renunciou à sua vontade própria e entregou-se inteiramente à vontade do céu”.

            Nove na quinta posição significa: A espera junto ao vinho e ao alimento. A perseverança traz boa fortuna.

            Mesmo em meio ao perigo há intervalos de tranqüilidade nos quais o homem se sente relativamente bem. Se possuir suficiente força interior, aproveitará a pausa fortalecendo-se para uma nova luta. Ele deve ser capaz de desfrutar do momento sem se deixar desviar de sua meta, pois a perseverança é necessária para se permanecer vitorioso.

            O mesmo acontece na vida pública. Não se pode alcançar tudo ao mesmo tempo. A suprema sabedoria consiste em permitir às pessoas esses intervalos de recuperação, com os quais se vivifica a alegria no trabalho até se chegar ao término da tarefa. Jaz oculto aqui o segredo de todo o hexagrama. Este difere do hexagrama “OBSTÁCULO” (39), pois na espera o homem está seguro de sua meta e por isso não perde a serenidade nascida da alegria interior.

            Seis na sexta posição significa: Alguém cai no buraco. Chegam três hóspedes que não foram convidados. Honra-os, e ao final virá boa fortuna.

            A espera acabou: já não se pode mais evitar o perigo. Alguém cai no buraco e tem que aceitar o inevitável. Tudo parece ter sido em vão. Porém justamente nesse momento extremo ocorre uma imprevista mudança. Sem qualquer movimento de sua parte, faz-se uma intervenção externa. Ao início não se sabe se tal intervenção visa à salvação ou à destruição. Em tais circunstâncias deve-se manter a mente alerta sem deixá-la recuar num gesto de recusa teimosa, para então acolher respeitosamente a nova alternativa. Desta maneira se sairá afinal do perigo, e tudo irá bem. O destino com freqüência traz felizes reviravoltas em formas que ao início parecem estranhas.

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6. SONG/CONFLITO

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Acima CHIEN, O CRIATIVO, CÉU.

A baixo K’AN, O ABISMAL, ÁGUA.

            O trigrama superior, cuja imagem e o céu, tende a subir e o trigrama inferior, a água, tende por sua natureza a descer. O movimento dos dois componentes básicos é divergente, o que gera a idéia de conflito.

            O atributo do Criativo é a força, o do Abismal é o perigo, a astúcia. Quando a astúcia tem a força diante de si há conflito.

            Há uma terceira indicação de conflito em termos de caráter, pela reunião de uma profunda astúcia no interior e uma forte decisão no exterior. Um tal caráter provoca conflito.

            JULGAMENTO

            CONFLITO

            Você é sincero e está sendo impedido.

            Deter-se cautelosamente no meio do caminho traz boa fortuna.

            Ir até o fim traz infortúnio.

            É favorável ver o grande homem.

            Não é favorável atravessar a grande água.

            O conflito surge quando alguém julga estar certo mas encontra oposição. Sem a convicção de se estar certo, a oposição conduz à astúcia ou a um abuso violento, mas não ao conflito aberto.

            Quando se está envolvido num conflito a única salvação está numa lúcida e firme prudência, disposta a buscar conciliação indo ao encontro do oponente a meio caminho. Conduzir a luta até seu amargo fim é nefasto mesmo quando se tem razão, porque através dessa atitude se perpetua a inimizade. É importante ir ver o grande homem, isto é, um homem imparcial cuja autoridade seja suficiente para solucionar o conflito pacificamente ou garantir uma decisão justa. Por outro lado deve-se evitar “atravessar a grande água” em época de discórdia, isto é, começar empreendimentos perigosos, pois estes só teriam sucesso caso houvesse uma união de forças. O conflito interno enfraquece, impedindo assim a vitória sobre o perigo externo.

            IMAGEM

            O céu e a água movimentam-se em sentido oposto: a imagem do CONFLITO.

            Assim, o homem superior em todas as suas negociações cuidadosamente considera o começo.

            A imagem indica que as causas do conflito encontram-se latentes nas tendências opostas dos dois trigramas. Quando essas tendências divergentes aparecem, o conflito torna-se inevitável. Assim, para que se possa evitá-lo, tudo deve ser cuidadosamente considerado desde o início. Se os direitos e os deveres são definidos com precisão ou se num grupo as orientações espirituais convergem, a causa do conflito fica, de antemão, eliminada.

            LINHAS

            Seis na primeira posição significa: Se não se perpetuar a questão haverá uma pequena maledicência. Ao final chega a boa fortuna.

            Enquanto a luta encontra-se em seus primórdios, o melhor que se pode fazer é abandoná-la. Principalmente diante de um adversário mais forte, não é aconselhável deixar que o conflito chegue à instância de decisão. Assim pode ainda ocorrer uma discussão áspera, mas ao final tudo irá bem.

            Nove na segunda posição significa:   Não se pode lutar, volta-se para casa e cede-se. As pessoas de sua cidade, trezentos lares, permanecem livres de culpa.

            Na luta contra um adversário superior a retirada não é uma vergonha. Quando alguém se retira a tempo, evita más conseqüências. Se, movido por um falso amorpróprio, entrasse numa luta desigual, provocaria com isso sua própria desgraça. Uma sábia conciliação nesse caso beneficiará toda a comunidade, que assim não será arrastada ao conflito.

            Seis na terceira posição significa: Alimentar-se da antiga virtude induz à perseverança. Perigo. Ao final chega a boa fortuna. Se acaso você está a serviço de um rei, não procure encargos.

            Há aqui uma advertência sobre o perigo que implica a tendência à expansão. O homem só tem posse duradoura sobre o que foi ganho honestamente através de méritos. Tal patrimônio pode ser ocasionalmente questionado, mas como se trata de propriedade legítima, não poderá ser roubado. Ele não pode perder aquilo que pela força de seu próprio ser lhe corresponde. Quando se coloca a serviço de um superior, só evitará o conflito não procurando obter prestígio através de seus trabalhos. O que importa é que a tarefa seja realizada. Que as honrarias sejam deixadas aos outros.

            Nove na quarta posição significa: Ele não pode lutar, volta e submete-se ao destino. Modifica-se e encontra a paz na perseverança. Boa fortuna.

            Isso indica alguém cuja atitude interna ao início não encontra paz. Ele não se sente bem em sua situação e deseja alcançar uma posição melhor, mesmo que através do conflito. Ao contrário da linha na segunda posição, aqui se está lidando com um adversário mais fraco e portanto se poderia vencer. Mas ele não pode lutar pois em sua consciência sabe ser isso injustificável. Assim sendo recua, aceitando seu destino. Modifica sua atitude e encontra a paz duradoura na harmonia com a lei eterna. Isso traz boa fortuna.

            Nove na quinta posição significa: Lutar diante dele traz suprema boa fortuna.

            Aqui surge o árbitro do conflito. Poderoso e justo, é capaz de fazer prevalecer o que é correto. Pode-se confiar a ele um litígio sem temor. Aquele que tiver razão encontrará suprema boa fortuna.

            Nove na sexta posição significa: Mesmo que, por um acaso, alguém seja presenteado com um cinto de couro, ao final da manhã lhe terá sido arrancado três vezes.

            Descreve-se aqui alguém que levou o conflito até seu amargo fim, e triunfou. Recebe uma condecoração. Porém, sua felicidade não durará. Ele será atacado continuamente e o resultado é um conflito sem fim.

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7. SHIH/O EXÉRCITO

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Acima K’UN, O RECEPTIVO, TERRA.

Abaixo K’AN,0 ABISMAL, ÁGUA.

            Este hexagrama se compõe dos trigramas K’an, água, e K’un, terra. Simboliza, assim, a água subterrânea, acumulada debaixo da terra. Da mesma forma, uma força militar jaz acumulada num povo; invisível na paz, porém disponível a qualquer momento como fonte de poder. Os atributos dos dois trigramas básicos são: perigo no interior e obediência no exterior. Isso indica a natureza do exército, algo perigoso em seu interior e cuja manifestação externa exige disciplina e obediência.

            A forte linha nove na segunda posição exerce o comando do hexagrama, tendo as demais linhas, todas maleáveis, como subordinadas. Essa linha representa um dirigente, pois encontra-se na posição central em um dos dois trigramas básicos. Entretanto, como isso ocorre no trigrama inferior e não no superior, ela simboliza não o governante mas o eficiente general que mantém o exército obediente através de sua autoridade.

            JULGAMENTO

            O EXÉRCITO

            Necessita de perseverança e de um homem forte.

           Boa fortuna sem culpa.

            O exército é uma massa que necessita de organização para tornar-se uma força de combate. Sem uma firme disciplina nada se pode alcançar. Porém tal disciplina não pode ser atingida através de meios violentos. Ela requer um homem forte que conquiste o coração do povo, despertando-lhe o entusiasmo. Para que ele possa desenvolver suas habilidades, necessita da completa confiança de seu dirigente, o qual, por sua vez, deve-lhe conferir a responsabilidade total enquanto a guerra durar. Porém uma guerra é algo sempre perigoso, acarretando danos e devastação. Por isso não se deve deflagrá-la apressada e impensadamente mas, como a um remédio venenoso, recorrerlhe apenas em última instância. A causa justa, assim como o objetivo claro e compreensível da guerra, deve ser explicada ao povo por um líder experiente. Somente quando existem objetivos de guerra bem definidos, aos quais o povo possa aderir em plena consciência, surgem a unidade e a força de convicção que conduzem à vitória. Mas o líder deve cuidar para que a paixão da guerra e o delírio do triunfo não levem a injustiças que não teriam a aprovação de todos. Tendo como base a justiça e a perseverança, tudo irá bem.

            IMAGEM

            No meio da terra está a água: a imagem do EXÉRCITO.

            Assim o homem superior aumenta as massas através de sua generosidade para com o povo.

            A água subterrânea jaz invisível dentro da terra. Assim também o poder militar de um povo está invisivelmente presente nas massas.

            Quando o perigo ameaça, cada camponês torna-se soldado; ao final da guerra, ele retorna ao seu arado. Aquele que se mostra magnânimo em relação ao povo conquista seu afeto e o povo que vive sob um governo generoso torna-se forte e poderoso. Só um povo economicamente forte pode ter relevância em termos de poderio militar. Deve-se, portanto, cultivar esse poder através do incentivo das condições econômicas do povo e de um regime político humanitário. Só se pode mover uma guerra vitoriosa quando existe entre o governo e o povo esta aliança invisível que faz com que o povo se sinta protegido pelo governo, assim como a água subterrânea é protegida pela terra.

            LINHAS

            Seis na primeira posição significa:

            Um exército deve ser posto em movimento ordenadamente.

            Se não há boa ordem, o infortúnio ameaça.

            Ao começo de um empreendimento militar a ordem é imprescindível. Deve haver uma causa justa e válida, a obediência e coordenação das tropas precisam ser bem organizadas, pois do contrário o fracasso será inevitável.

            Nove na segunda posição significa:

            No meio do exército.

            Boa fortuna. Nenhuma culpa.

            O rei concede uma tríplice condecoração.

            O comandante deve estar no meio de seu exército. Deve manter-se em contato com ele e compartilhar as experiências positivas e negativas com as massas que comanda. Só assim estará à altura das responsabilidades de seu cargo. Ele necessita também do reconhecimento do governante. As condecorações que recebe são justificadas pois não representam um privilégio pessoal. O exército inteiro recebe as honrarias através daquele que está ao centro, o comandante.

            Seis na terceira posição significa:

            Talvez o exército conduza cadáveres na carroça.

            Infortúnio.

            Duas explicações são possíveis aqui: uma indicaria derrota em virtude de alguém que, não sendo o legítimo dirigente, interfere no comando. A outra explicação é semelhante quanto ao sentido geral, porém interpreta diferentemente a expressão “conduzir cadáveres na carroça”. Nos enterros e nos sacrifícios aos mortos, era costume, na China, que aquele a quem se oferecia o sacrifício fosse representado por um menino de sua família, que sentava-se no lugar do morto e recebia as honrarias por ele. Com base nesse costume interpreta-se o texto como significando que um “menino-cadáver” está sentado na carroça, isto é, que a autoridade não está sendo exercida pelos legítimos dirigentes, porém foi usurpada por outros. Toda a dificuldade poderia ser resolvida com a hipótese de um erro de cópia. O ideograma “fam”, que significa “todos”, teria sido confundido com “Shih”, que significa cadáver. Neste caso o significado seria de que se a multidão assumir a liderança do exército (viajando na carroça), o infortúnio se seguirá.

            Seis na quarta posição significa:

            O exército retrocede. Nenhuma culpa.

            Quando diante de um inimigo superior, contra o qual a luta seria inútil, uma retirada ordenada seria a única medida acertada, porque através dessa retirada o exército evitaria a derrota e a desintegração. Não é de modo algum uma prova de coragem ou força insistir, apesar das condições, em lançar-se numa luta inútil.

            Seis na quinta posição significa:

            Há caça no campo. É favorável capturá-la.

            Sem culpa.

            Que o mais velho lidere o exército.

            O mais moço conduz cadáveres.

            A perseverança traz infortúnio.

            A caça está no campo. Abandonou sua morada, a floresta, e irrompeu nos campos, devastando-os. Isso significa uma invasão inimiga. Neste caso, luta enérgica e castigo são perfeitamente justificáveis, desde que conduzidos de acordo com os regulamentos. Não devem degenerar num tumulto selvagem em que todos procuram defender-se isoladamente. Ainda que contasse com a máxima perseverança e coragem, isso levaria ao infortúnio. O exército deve ser chefiado por um comandante experiente. Trata-se de mover uma guerra, e não de deixar que a turba trucide todos os que caírem em suas mãos, pois nesse caso a derrota seria inevitável e, apesar de toda persistência, o infortúnio ameaçaria.

            Seis na sexta posição significa:

            O grande príncipe emite ordens, funda estados, outorga feudos a famílias. Não se deve utilizar homens inferiores.

            A guerra termina com sucesso; conquistou-se a vitória e o rei reparte estados e feudos entre seus vassalos leais. Nessa ocasião é importante não permitir que homens inferiores cheguem ao poder. Se contribuíram dando ajuda, devem ser pagos em dinheiro. Mas não se lhes deve conceder terras nem direitos senhoriais para que não ocorram abusos.

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8. PI / MANTER-SE UNIDO (SOLIDARIEDADE)

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Acima K ‘AN, O ABISMAL, ÁGUA.

Abaixo K’UN, O RECEPTIVO, TERRA.

            As águas sobre a terra fluem convergindo sempre que podem, como por exemplo no mar, onde todos os rios se encontram. Simbolicamente isso representa a união e suas respectivas leis. A mesma idéia é sugerida pelo fato de todas as linhas do hexagrama serem maleáveis, à exceção da linha na quinta posição, a do dirigente. Ao centro da união, numa posição de liderança, está um homem de vontade firme; sob sua influência unem-se as linhas maleáveis. Por sua vez, esta personalidade forte e capaz de liderar une-se também aos outros, encontrando neles o complemento de sua própria natureza.

            JULGAMENTO

            MANTER-SE UNIDO

            Os inseguros gradualmente se aproximam.

            Aquele que chega tarde demais encontra o infortúnio.

            Aqui o que se requer é a união com os outros de modo a que, graças a um espírito de solidariedade, possa haver uma complementação e ajuda entre todos. Uma tal união requer uma figura central em torno da qual as pessoas se congreguem. Tornarse um centro de influência unindo as pessoas é uma tarefa grave e de pesadas responsabilidades. Requer grandeza interior, firmeza e força. Assim sendo, quem deseja unir os outros em tomo de si deve, antes, se perguntar se está à altura de um tal encargo. Aquele que tentasse realizar uma tal tarefa sem possuir uma verdadeira vocação provocaria uma confusão ainda maior do que se não tivesse havido união alguma.

            Mas quando existe um ponto de convergência real, aqueles que ao início estavam hesitantes e incertos pouco a pouco aproximam-se espontaneamente. Os retardatários se verão prejudicados, pois é importante que se realize a união no momento oportuno. Relacionamentos formam-se e se consolidam de acordo com leis internas definidas. Vivências compartilhadas fortalecem esses vínculos. Aquele que chega tarde demais, deixando, por isso, de participar dessas experiências básicas, terá de sofrer as conseqüências de seu atraso, encontrando a porta fechada.

            Se um homem reconhece a necessidade da união mas não encontra em si mesmo a força suficiente para ser o centro, é então seu dever tornar-se membro de alguma outra comunidade.12

            IMAGEM

            Sobre a terra há água: a imagem do MANTER-SE UNIDO.

          Assim os reis da antigüidade concediam direitos feudais sobre os diferentes estados  e mantinham relações amistosas com os senhores feudais.

            A água preenche os espaços vazios que encontra na terra e se mantém firmemente aderida a ela. A organização social da China antiga baseava-se nesse princípio de preservar a união entre os vassalos e os governantes. As águas fluem unindo seus cursos porque estão todas sujeitas às mesmas leis. Assim também a sociedade humana deve igualmente manter-se unida através de uma comunidade de interesses que possibilite a cada um sentir-se parte do todo. O poder central de um organismo social deve procurar fazer com que cada membro encontre um verdadeiro interesse em manter-se unido, como era o caso na relação paternal existente entre o rei e os vassalos na antiga China.

12     Comparar com o dístico: “Deves sempre almejar ao todo, e se não podes, por ti só, tornar-te um todo, integra-te a esse todo, servindo-o como um membro.

            LINHAS

            Seis na primeira posição significa:

            Mantenha-se solidário a ele com sinceridade e lealdade.

            Não há culpa nisso.

            A verdade é como um cântaro de barro cheio.

            Assim, ao final, a boa fortuna vem de fora.

            Para se formar relacionamentos a única base acertada é a completa sinceridade. Essa atitude representada pela imagem de um cântaro de barro cheio, no qual o conteúdo é tudo e a forma vazia nada, se expressa não em palavras inteligentes, mas através da força interior. E essa força é tão poderosa que é capaz de atrair para si a boa fortuna do exterior.

            Seis na segunda posição significa:

            Mantenha-se unido a ele interiormente.

            A perseverança traz boa fortuna.

            O homem que atende de forma correta e perseverante aos apelos que vêm do alto e que o exortam à ação, torna seus relacionamentos interiorizados e não se perde. Porém, quando o homem liga-se aos outros com a atitude servil de quem ambiciona ascender, perde a si mesmo e não segue o caminho do homem superior, que jamais abandona sua dignidade.

            Seis na terceira posição significa:

            Você une-se às pessoas erradas.

            Freqüentemente o homem se encontra entre pessoas com as quais não possui afinidade. Ele não deve se deixar levar, pela força do hábito, a uma falsa intimidade. Talvez seja desnecessário acrescentar que isso seria nefasto. A única atitude acertada diante de tais pessoas é manter uma sociabilidade sem intimidade. Só assim nos manteremos livres para um relacionamento futuro com aqueles que nos são semelhantes.

            Seis na quarta posição significa:

            Mantenha-se unido a ele também exteriormente.

            A perseverança traz boa fortuna.

            Aqui as relações com um homem que é o centro da união estão firmemente estabelecidas. Assim se pode e se deve mostrar adesão abertamente. Mas deve-se permanecer firme sem se deixar desviar por nada.

            Nove na quinta posição significa:

            Manifestação de solidariedade.

            Durante a caçada o rei usa batedores somente em três lados e renuncia à caça que foge pela frente. Os cidadãos não precisam ser advertidos.

            Nas caçadas reais da China antiga era costume que os animais fossem cercados pelos batedores por apenas três lados. O animal cercado tinha então uma chance de escapar pelo quarto lado. Caso não fugisse por esse rumo mantido livre, teria de passar por uma porta atrás da qual encontrava-se o rei, pronto para atirar. Só eram alvejados os animais que passavam por ali. Deixava-se escapar os animais que fugiam pela frente. Este costume correspondia à atitude própria a um rei de não converter a caçada numa carnificina, porém só abater os animais que, por assim dizer, se expunham livremente.

            Aqui se indica um governante ou um homem influente que atrai as pessoas. Aqueles que vêm a ele são aceitos; os que não vêm, ele deixa que sigam seus rumos. Não convida nem adula ninguém; todos vêm por iniciativa própria. Desta maneira forma-se uma dependência voluntária por parte dos que a ele se unem. As pessoas não precisam reprimir-se, mas podem expressar suas opiniões abertamente. Medidas policiais são desnecessárias; todos, por livre iniciativa, mostram-se devotados para com o governante. Esse princípio de liberdade é válido para a vida em geral. Não se deve implorar o favor das pessoas. Se alguém desenvolve em si mesmo a pureza e a força necessárias para ser um centro de união, os homens que lhe são destinados aproximam-se por si mesmos.

            Seis na sexta posição significa:

            Ele não encontra uma cabeça para manter-se unido.

            Infortúnio.

            A cabeça é o princípio. Sem um começo acertado, não pode haver um final correto. Se uma pessoa perde o momento próprio à união, e amedrontada hesita em aderir plena e verdadeiramente, lamentará seu erro quando for tarde demais.

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9. HSIAO CH’U / O PODER DE DOMAR DO PEQUENO

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Acima SUN, A SUAVIDADE, VENTO.

Abaixo CH’IEN, O CRIATIVO, CÉU.

            O hexagrama significa o poder do pequeno, do sombrio, que retém, amansa, freia. Na quarta posição, o lugar do ministro, há uma linha fraca que limita todas as demais linhas fortes. Sua imagem é a do vento soprando nas alturas do céu. Ele retém as nuvens, o sopro ascendente do Criativo, para que se condensem. Mas ainda não é suficientemente forte para transformá-las em chuva. O hexagrama apresenta uma configuração de circunstâncias na qual o forte é temporariamente contido pelo fraco. Uma tal situação só pode ter êxito através da suavidade.

            JULGAMENTO

            O PODER DE DOMAR DO PEQUENO

            Tem sucesso.

            Nuvens densas, nenhuma chuva vinda de nossa região oeste.

            Esse simbolismo se refere às condições vigentes na China na época do Rei Wen. Oriundo do oeste, ele encontrava-se então no leste, na corte do poderoso tirano Chou Hsin. Ainda não era o momento para atuar em grande escala. Ele podia apenas conter o tirano, até certo ponto, através de uma persuasão amável. Por isso, a imagem de numerosas nuvens que prometem à terra umidade e bênçãos, sem que, por hora, chegue a haver chuva. A situação não é desfavorável. Há perspectivas de um sucesso final. Mas existem ainda obstáculos no caminho. Só se podem tomar medidas preparatórias.

             Pode-se exercer influência apenas através dos limitados recursos de persuasão amável. Ainda não é o momento para uma ação enérgica e em grande escala. Porém, dentro de certos limites, pode-se exercer uma influência que contenha e domestique. Para se realizar o propósito intencionado é necessário uma firme determinação interna e uma suave adaptabilidade externa.

            IMAGEM

            O vento percorre os céus:

            a imagem do PODER DE DOMAR DO PEQUENO.

            Assim o homem superior aperfeiçoa a forma externa de sua natureza.

            O vento pode reunir as nuvens no céu, mas sendo apenas ar, sem corpo sólido, não é capaz de produzir efeitos grandiosos ou duradouros. Assim, em épocas em que não é possível uma grande atuação exterior, resta ao homem a possibilidade de aprimorar as expressões de seu ser mediante pequenas coisas.

            LINHAS

            Nove na primeira posição significa:

            Retorno ao caminho. Como poderia haver culpa nisso?

            Boa fortuna.

            É próprio à natureza do homem forte pressionar para adiante. Com isso, ele encontra obstáculos. Retorna então ao caminho próprio à sua situação no qual é livre para avançar ou recuar. É sábio e razoável não tentar obter as coisas através da violência e da força. Aplicado à natureza do assunto em pauta, isso trará boa fortuna.

            Nove na segunda posição significa:

            Ele deixa-se conduzir ao retorno.

            Boa fortuna.

            Há um desejo de avançar, mas antes de prosseguir um homem vê, através do exemplo de seus semelhantes, que esse caminho está bloqueado. Num tal caso, quando o impulso para avançar não está de acordo com o tempo, o homem sensato e resoluto não irá se expor a um fracasso pessoal, mas recuará com os companheiros que pensam como ele. Isso traz boa fortuna, pois assim ele não se expõe inutilmente.

            Nove na terceira posição significa:

            Os raios soltam-se da roda da carroça.

            O homem e a mulher viram os olhos.

            Tenta-se aqui avançar violentamente, conscientes que o poder que bloqueia é fraco. Porém, como em virtude das circunstâncias é de fato o elemento fraco que detém o poder, essa tentativa de um ataque precipitado fracassará. Circunstâncias externas impedem o progresso, assim como uma carroça não pode avançar quando se soltam os raios de suas rodas. Ainda não se dá importância a essa indicação do destino e por isso surgem controvérsias desagradáveis, como uma discussão conjugai. Certamente essa não é uma condição propícia, pois, apesar das circunstâncias favorecerem o lado fraco em seus intentos, as dificuldades são numerosas demais para que se possa garantir um resultado feliz. Como conseqüência, o elemento forte não pode utilizar seu poder para exercer a influência correta sobre os que estão em seu poder. Ele foi rechaçado lá onde esperava uma vitória fácil e com isso, de certa forma, comprometeu-se.

            Seis na quarta posição significa:

            Se você é sincero

            o sangue desaparece e o medo afasta-se.

            Nenhuma culpa.

            Se alguém se encontra numa situação difícil e de grande responsabilidade, como conselheiro de um homem poderoso, deve refreá-lo, para que prevaleça o que é correto. Nisso jaz um perigo tão grande que se pode temer até um derramamento de sangue. Mas o poder da verdade desinteressada é maior que todos esses obstáculos. Tamanho é seu impacto que o objetivo é atingido, desaparecendo o temor, assim como todo o perigo de derramamento de sangue.

            Nove na quinta posição significa:

            Se você é sincero e leal em sua aliança,

            será rico em seu semelhante.

            A lealdade conduz a uma aliança firme, pois se fundamenta numa complementação entre as pessoas. No mais fraco, a lealdade consiste na devoção, e no mais forte, em ser digno de confiança. Essa complementação mútua conduz a uma verdadeira riqueza, que se manifesta plenamente quando o homem não a retém para si, mas procura compartilhá-la com o seu próximo. Alegria compartilhada, alegria redobrada.

            Nove na sexta posição significa:

            A chuva vem, o repouso chega.

            Isso se deve ao efeito duradouro do caráter.

            A mulher cai em perigo devido à perseverança.

            A lua está quase cheia.

            Se o homem superior persistir, o infortúnio virá.

            O sucesso foi atingido. O vento juntou as nuvens, causando a chuva. Uma posição firme foi alcançada. Isso foi conseguido graças à acumulação progressiva de pequenos efeitos, resultantes da reverência a um caráter superior. Mas um tal sucesso, obtido pouco a pouco, exige muita cautela. Seria uma perigosa ilusão julgar que se pode fazer alarde de uma tal vitória. O princípio feminino, o elemento fraco que alcançou a vitória, não deve jamais se vangloriar de tal conquista, pois isso levaria ao perigo. O poder sombrio da lua é maior quando a lua está quase cheia. É no plenilúnio, quando a lua está em direta oposição ao sol, que se inicia, inexorável, o minguante. Em tais circunstâncias o homem deve se contentar com o que foi alcançado. Avançar mais ainda antes do momento apropriado levaria ao infortúnio.

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10. LU/A CONDUTA (TRILHAR)

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Acima CHIEN, O CRIATIVO, CÉU.

Abaixo TUI, A ALEGRIA, LAGO.

            A ‘Conduta” significa, inicialmente, a maneira correta de se comportar. Acima está o céu, o pai; abaixo, o lago, a filha mais moça. Isso mostra a distinção entre alto e baixo; nela se fundamenta a tranquilidade e a conduta correta na sociedade. Por outro lado, no sentido de trilhar, Lu significa literalmente “pisar sobre algo”. O pequeno e alegre Tui pisa sobre o grande e forte Ch’ien. O movimento dos dois trigramas básicos é ascendente. O fato de que o forte pise no fraco é pressuposto no Livro das Mutações, não sendo por isso mencionado. O trilhar do fraco sobre o forte não é perigoso aqui, pois isso se dá em meio a uma alegria livre de arrogância, que faz com que o forte não se irrite, tudo aceitando de bom grado.

            JULGAMENTO

            A CONDUTA.

            Trilhando13 sobre a cauda do tigre.

            Ele não morde o homem.

            Sucesso.

            A situação é realmente difícil. O mais forte e o mais fraco encontram-se muito próximos um do outro. O fraco segue a trilha do forte e o provoca. Mas o forte o aceita e não lhe causa nenhum mal, pois o contato dá-se de forma alegre e inofensiva.

            Em termos de assuntos humanos isso significa que se está lidando com pessoas selvagens e intratáveis. Neste caso o objetivo será alcançado se a conduta mantiver o decoro. Atitudes gentis conseguem sucesso mesmo com pessoas irritáveis.

            IMAGEM

            Acima o céu, abaixo o lago:

             a imagem da CONDUTA.

            Assim o homem superior discrimina entre o alto e o baixo e fortalece desse modo a mente do povo.

            O céu e o lago evidenciam uma diferença de altitude inerente à essência dos dois, e que, por isso, não desperta inveja. Assim também entre os homens há, necessariamente, diferenças de nível. É impossível chegar a uma igualdade universal. Porém, o que importa é que as diferenças de nível na sociedade humana não sejam arbitrárias e injustas, pois nesse caso a inveja e a luta de classes se seguiriam inevitavelmente. Se, ao contrário, às diferenças de nível externo corresponderem diferenças de capacidade interna, e o valor interno for o critério para a determinação da hierarquia externa, a tranquilidade reinará entre os homens e a sociedade encontrará ordem.

13 O termo “Auftreten” foi aqui traduzido por “trilhar” em atenção á sua origem no latim “tribulare”, “debulhar”. Esse sentido de “exercer pressão sobre algo” daria ao “trilhar” o significado de “pisar sobre”, ao mesmo tempo que indicaria o caráter de movimento do caminhar, associado à conduta. (Nota da tradução brasileira.)

            LINHAS

            Nove na primeira posição significa:

            Conduta simples. Progresso sem culpa.

            Alguém está numa situação em que ainda não assumiu compromissos sociais. Se sua conduta for simples, permanecerá livre deles. Estando satisfeito e evitando fazer exigências aos outros, ele poderá seguir calmamente suas predileções. O significado desse hexagrama não é estancar, porém seguir adiante. Alguém se encontra, ao início, numa posição insignificante. Mas possui a força interna que possibilita o progresso. Se ele se contenta com a simplicidade, poderá seguir adiante sem culpas. Quando um homem está insatisfeito com condições modestas, torna-se inquieto e ambicioso, querendo progredir, não para realizar algo de valor, mas apenas para escapar da pobreza e, ao atingir sua meta, torna-se arrogante e apegado ao luxo. Por isso seu progresso é acompanhado de culpa. O homem capaz, ao contrário, está satisfeito com sua conduta simples. Ele quer avançar de modo a executar alguma coisa. Uma vez alcançado seu objetivo, algo é realizado e tudo fica bem.

            Nove na segunda posição significa:

            Trilhando sobre um caminho plano e simples.

            A perseverança de um homem obscuro traz boa fortuna.

            Aqui é indicada a situação de um sábio solitário. Ele mantém-se afastado do turbilhão ruidoso do mundo; nada procura, nada pede, nem se deixa ofuscar por objetivos sedutores. Permanece fiel a si mesmo, e assim segue por um caminho plano, sem ser molestado. Como está satisfeito com o que tem e não desafia o destino, permanece livre de atribulações.

            Seis na terceira posição significa:

            Um homem com uma só vista pode enxergar, um aleijado pode pisar.

            Ele pisa na cauda do tigre.

            O tigre morde o homem. Infortúnio.

            Um guerreiro age assim em favor de seu grande príncipe.

            Um homem com uma só vista certamente pode ver, mas não o suficiente para uma visão clara. Um aleijado pode certamente pisar, mas não o suficiente para avançar. Se alguém com esses defeitos considera-se entretanto forte, e se expõe ao perigo, provoca seu próprio infortúnio, pois tenta realizar algo que está acima de suas forças. Esse modo temerário de investir, sem levar em conta suas próprias forças, pode no máximo justificar-se num guerreiro que luta pelo seu príncipe.

            Nove na quarta posição significa:

            Ele pisa na cauda do tigre.

            Cautela e circunspecção conduzem, ao final, à boa fortuna.

            Isso se refere a um empreendimento perigoso. Existe a força interior necessária para realizá-lo, porém esse poder interno está aliado a uma cautela hesitante nas atitudes externas. Essa linha contrasta com a anterior, na qual havia fraqueza interna forçando o avanço externo. Aqui, o sucesso final está assegurado.

            Esse consiste em realizar o seu propósito, isto é, ultrapassar o perigo seguindo adiante.

            Nove na quinta posição significa:

            Conduta decidida.

            Perseverança com consciência do perigo.

            Aqui está o dirigente do hexagrama como um todo. Alguém se vê forçado a uma conduta decidida. Mas ao mesmo tempo é necessário permanecer consciente do perigo inerente a tal atitude, em especial quando ela deve ser prolongada. Só a consciência do perigo possibilita o sucesso.

            Nove na sexta posição significa:

            Contemple sua conduta e examine os sinais favoráveis.

            Quando tudo estiver completo, virá suprema boa fortuna.

            O trabalho terminou. Se o homem quiser saber se a boa fortuna se seguirá, deve então olhar para trás, para sua conduta e para as consequências dela advindas. Se os resultados forem bons, a boa fortuna é certa. Ninguém conhece a si próprio. Só pelas consequências de suas ações, pelos frutos de seu trabalho, poderá o homem avaliar o que o espera.

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11.T’AI / PAZ

Acima K’UN, O RECEPTIVO, TERRA.

Abaixo CH’IEN, O CRIATIVO, CÉU.

            O Receptivo, cujo movimento tende a descer, está acima; o Criativo, cujo movimento eleva-se, está abaixo. Assim, suas influências encontram-se, estão em harmonia, e todos os seres florescem e prosperam. O hexagrama está relacionado ao primeiro mês14 (fevereiro-março), no qual as forças da natureza preparam uma nova primavera.

            JULGAMENTO

            PAZ.

            O pequeno parte, o grande se aproxima.

            Boa fortuna. Sucesso.

            O hexagrama indica uma época em que o céu parece estar na terra. O céu colocou-se sob a terra, e assim os dois princípios unem seus poderes em profunda harmonia. Essa união traz paz e bênção a todos os seres.

14     Sendo o calendário chinês lunar, o Ano Novo é data móvel, situando-se, em geral, em fins de janeiro ou começo de fevereiro. Assim, o primeiro mês seria fevereiro-março. A associação à primavera refere-se ao fato de ela ocorrer ao final do período do primeiro mês, no hemisfério norte. Sempre que os meses são mencionados, em relação com os hexagramas, é necessário considerar que o texto visa a ressaltar, com isso, o simbolismo de uma das quatro estações. Quando, portanto, o hexagrama é aplicado ao hemisfério sul, deve-se prescindir da referência ao mês e considerar-se apenas a simbologia da estação aludida pelo texto. (Nota da tradução brasileira.)

             No âmbito humano isto representa uma época de harmonia social. Os poderosos voltam-se para os humildes, enquanto esses se mostram amistosos em relação àqueles, terminando assim toda hostilidade.

            O princípio luminoso está no interior, no centro, em posição decisiva. O princípio da escuridão encontra-se do lado de fora. Assim, o princípio luminoso exerce uma poderosa influência, e o princípio obscuro submete-se. Deste modo ambos recebem o que lhes corresponde. Quando, numa sociedade, os bons elementos detêm o comando em suas mãos, exercem uma influência sobre os maus elementos que, então, mudam para melhor. Quando, no homem, o espírito dos céus governa, sua natureza corpórea sofre essa influência, encontrando o seu lugar apropriado.

            As linhas chegam ao hexagrama embaixo, abandonando-o em cima. Aqui são, portanto, os elementos pequenos, fracos e maus que estão partindo, enquanto os elementos grandes, fortes e bons ascendem. Isso traz boa fortuna e sucesso.

            IMAGEM

            Céu e terra unem-se: a imagem da PAZ.

Assim o governante divide e completa o curso do céu e da terra, favorece e regula os dons do céu e da terra e desta forma ajuda ao povo.

            O céu e a terra estão em contato e combinam suas influências, propiciando uma época de florescimento e prosperidade geral, O governante dos homens deve regular essa corrente de energia. Isso se faz através da divisão. Assim, os homens dividem o fluxo uniforme do tempo em estações, de acordo com a seqüência dos fenômenos naturais, e dividem também em pontos cardeais o espaço que envolve todas as coisas. Desse modo, a natureza, em sua pujante profusão de fenômenos, é delimitada e controlada. Por outro lado, é necessário estimular a natureza em sua produtividade. Isso se consegue ajustando os produtos ao momento e lugar adequados, o que aumenta o rendimento natural. Assim, a natureza recompensa o homem que a controlou e estimulou.

            LINHAS

            Nove na primeira posição significa:

            Quando se arranca uma folha de grama, junto vem o torrão.

            Cada qual de acordo com sua espécie. Empreendimentos trazem boa fortuna.

            Em épocas de prosperidade, cada homem capaz chamado a ocupar um cargo traz consigo companheiros igualmente aptos, assim como ao se puxar uma folha de grama arrancam-se sempre várias outras, pois os caules se entrelaçam nas raízes. Em tais épocas, em que é possível se exercer uma ampla influência, o propósito do homem capaz é lançar-se à vida e realizar algo.

            Nove na segunda posição significa:

            Suportar gentilmente os incultos, travessar o rio com decisão, não negligenciar o longínquo, não privilegiar os companheiros. Assim se poderá trilhar o caminho do meio.

            Em épocas de prosperidade é acima de tudo importante possuir a grandeza interior que permite suportar pessoas imperfeitas. Nas mãos de um grande mestre nenhum material é improdutivo, para tudo ele encontra utilidade. Porém essa generosidade não deve ser confundida de modo algum com negligência ou fraqueza. É justamente em épocas de prosperidade que se deve estar sempre pronto para arriscar até empreendimentos perigosos, como a travessia de um rio, se for necessário. Do mesmo modo não se deve negligenciar o que está distante, mas atender, escrupulosamente, a tudo. Deve-se evitar, em especial, cair em partidarismos ou sob o domínio de facções. Mesmo quando homens que pensam de maneira semelhante chegam, juntos, a uma certa proeminência, não devem por isso formar facção, mas cada qual deve cumprir o seu dever. São esses quatro fatores que permitem superar o perigo de um gradual relaxamento, ameaça que se oculta em todo período de paz. Deste modo se encontra o caminho do meio para a ação.

            Nove na terceira posição significa:

            Não há planície que não seja seguida por uma escarpa.

            Não há partida que não seja seguida por um retorno.

            Aquele que se mantém perseverante quando em perigo permanece sem culpa.

            Não lamenta essa verdade: usufrua a boa fortuna que ainda possui.

            Tudo na terra está sujeito à mutação. À prosperidade segue-se a decadência. Esta é a eterna lei da terra. O mal pode ser controlado, mas não permanentemente eliminado. Sempre voltará. Esta convicção poderia provocar melancolia, porém isso não deve acontecer. Ela deve servir, apenas, para que o homem não se deixe iludir quando a boa fortuna chega. Se permanecer atento ao perigo, poderá prosseguir com perseverança e sem cometer erros. Enquanto a natureza interior do homem permanecer mais forte e mais rica que a fortuna externa, enquanto ele permanecer interiormente superior à sua sorte, a felicidade não o abandonará.

            Seis na quarta posição significa:

            Ele desce voando sem se vangloriar de sua riqueza.

            Junto a seu próximo, sincero e sem malícia.

            Nas épocas em que há confiança mútua, os grandes vêm ao encontro dos humildes com simplicidade, sem se vangloriar de suas riquezas. Isso não se deve à força das circunstâncias, mas corresponde a seus sentimentos mais profundos. A aproximação se dá com espontaneidade, pois está fundamentada numa convicção interior.

            Seis na quinta posição significa:

            O soberano I concede sua filha em casamento. Isso traz bênçãos e suprema boa fortuna.

            O soberano I é Tang. O QUE COMPLETA. Por um decreto seu, as princesas imperiais, apesar da posição hierárquica superior à dos maridos, lhes deviam obediência, como todas as outras esposas. Aqui também se indica uma união realmente modesta entre o alto e o baixo, que traz bênçãos e boa fortuna.

            Seis na sexta posição significa:

            A muralha cai novamente no fosso.

            Não use o exército agora.

            Proclame suas ordens em sua própria cidade.

            A perseverança traz humilhação.

            Começou a ocorrer a mudança mencionada no meio do hexagrama. A muralha da cidade cai novamente no fosso do qual tinha sido erguida. Sobrevém o desastre. Agora o homem deve se submeter ao destino, e não pretender detê-lo através de uma resistência violenta. O único recurso restante é resguardar-se em seu círculo mais íntimo. Se quisesse, como de costume, perseverar na resistência ao mal, o colapso seria ainda mais completo, levando à humilhação.

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12. PI / ESTAGNAÇÃO

Acima CH’IEN, O CRIATIVO, CÉU.

Abaixo K’UN, O RECEPTIVO, TERRA.

            Este hexagrama é o oposto do precedente. O céu está acima, retirando-se cada vez mais, enquanto a terra abaixo mergulha nas profundezas. Os poderes criadores estão dissociados. É a época da estagnação e do declínio. Esse hexagrama é atribuído ao sétimo mês (agosto-setembro)l5, quando o ano já ultrapassou seu zênite e o declínio outonal advém.

JULGAMENTO

            ESTAGNAÇÃO. Homens maus não favorecem a perseverança do homem superior.

O grande parte, o pequeno se aproxima.

            Céu e terra estão dissociados, e todas as coisas tornam-se entorpecidas. O que está acima não se relaciona com o que está abaixo e na terra prevalece a confusão e a desordem. O poder da escuridão está no interior e o poder da luz, no exterior. A fraqueza está no interior, a rigidez, no exterior. Os inferiores estão no interior, os homens superiores estão no exterior. O caminho dos homens inferiores está em ascensão, o caminho dos homens superiores, em declínio. Porém os homens superiores não se deixam afastar de seus princípios. Mesmo quando não podem exercer influência, permanecem leais a seus princípios e retiram-se para a reclusão.

            IMAGEM

            Céu e terra não se unem: a imagem da ESTAGNAÇÃO. Assim o homem superior recolhe-se a seu valor interno de modo a evitar dificuldades.

            Ele não permite que o honrem com recompensas.

            Quando em virtude das influências de homens inferiores prevalece uma desconfiança mútua na vida pública, torna-se impossível uma atividade frutífera, porque os fundamentos estão errados. Assim sendo, o homem superior sabe como deve agir em tais circunstâncias. Ele não se deixa seduzir pelas fascinantes ofertas para participar de atividades públicas, pois com isso iria apenas se expor ao perigo, já que não poderia concordar com as vilezas dos outros. Ele, portanto, oculta seu valor, retirando-se à reclusão.

15    Cf. a nota 14 (hexagrama 11, PAZ).   (Nota da tradução brasileira.)

            LINHAS

            Seis na primeira posição significa:

            Quando se arranca uma folha de grama, junto vem o torrão.

            Cada qual de acordo com sua espécie.

            A perseverança traz boa fortuna e sucesso.

            O texto é quase idêntico ao da primeira linha do hexagrama anterior, porém com um sentido oposto. Lá, um homem atrai outro para o caminho de uma carreira oficial. Aqui um homem leva outro consigo, ao aposentar-se da vida pública. Por isso o presente texto diz: “A perseverança traz boa fortuna e sucesso” e não “empreendimentos trazem boa fortuna”. Quando as possibilidades de exercer alguma influência são nulas, a retirada oportuna é o único meio de se evitar a humilhação. O sucesso, em seu sentido mais elevado, estará garantido, pois o homem, com isso, preserva a integridade de sua personalidade.

            Seis na segunda posição significa:

            Eles suportam e toleram.

            Isso significa boa fortuna para os homens inferiores.

            A estagnação ajuda o grande homem a obter sucesso.

            Os homens inferiores estão prontos a adular servilmente seus superiores. Eles também tolerariam o homem superior se este lhes ajudasse a pôr um termo às suas confusões. Isso lhes traria boa fortuna. Porém, o grande homem suporta com tranquilidade as consequências da estagnação e não se mistura à massa de seres inferiores. Esse não é o seu lugar. Assumindo seu próprio sofrimento, ele garante o sucesso de seus princípios fundamentais.

            Seis na terceira posição significa:

            Eles sentem vergonha.

            Os homens inferiores, tendo alcançado suas posições de forma ilegítima, sentem que não estão à altura da responsabilidade que assumiram. Começam a se envergonhar interiormente, apesar de, a princípio, não demonstrarem. Isto é um sinal de mudança para melhor.

            Nove na quarta posição significa:

            Aquele que age segundo a ordem do mais alto permanece sem culpa.

            Os que compartilham de seu ideal participam das bênçãos.

A época de estagnação aproxima-se do ponto em que uma transformação em direção oposta ocorrerá. Aquele que deseja restaurar a ordem deve sentir uma verdadeira vocação para tal tarefa e dispor da autoridade necessária. Quem se arroga ser capaz de criar a ordem segundo sua própria vontade, corre o risco de errar e fracassar. Porém, o homem que é verdadeiramente chamado a essa tarefa será ajudado pelas condições do momento, e todos os que participam de seus ideais serão com ele abençoados.

            Nove na quinta posição significa:

A estagnação aproxima-se do fim.

Boa fortuna para o grande homem.

“E se fracassasse, e se fracassasse?”

Deste modo ele a amarra a um feixe de brotos de amoreira.

            Mudam os tempos. Chega o homem certo, capaz de restaurar a ordem. Portanto, boa fortuna. Porém, são justamente tais épocas de transição que exigem o temor e o tremor. O sucesso só será assegurado mediante a máxima cautela, como alguém que perguntasse sem cessar: “e se fracassasse?”. Quando um arbusto de amoreira é cortado, brota de suas raízes uma série de mudas particularmente fortes. Por isso, a imagem de se amarrar algo a um feixe de brotos de amoreira é usada para simbolizar a maneira infalível de se alcançar o sucesso.

Confúcio comenta a respeito dessa linha: “O perigo surge quando o homem sente-se seguro em sua posição. A ruína ameaça quando o homem procura preservar sua situação. A confusão aparece quando o homem põe tudo em ordem. Portanto, o homem superior não esquece o perigo quando está em segurança, não esquece a ruína quando está bem estabelecido, nem esquece a confusão quando seus negócios estão em ordem. Deste modo ele assegura sua segurança pessoal e protege o reino”.

            Nove na sexta posição significa:

            A estagnação termina.

            Primeiro estagnação, depois boa fortuna. A estagnação não dura para sempre. Entretanto, ela não acaba por si mesma; para extingui-la é necessário o homem adequado. Essa é a diferença entre a paz e a estagnação: é preciso um contínuo esforço para manter a paz, que de outro modo se converteria em estagnação e em decadência. Entretanto, a época de decadência não se converte automaticamente em paz e prosperidade, mas ao contrário, requer um esforço para ser superada. Isso indica a atitude criativa, necessária para que o homem possa trazer ordem ao mundo.

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